A Antártida que vai a Copenhague

Estadão

06 Dezembro 2009 | 09h31

As terras e as águas entre o polo sul e o paralelo 60 não são um país, nem pertencem a nenhum país – pelo menos, não até a renegociação do Tratado Antártico, prevista para 2048. Dessa forma, a Antártida não tem governo, diplomatas e não conta com representantes oficiais na COP-15, a reunião de Copenhague sobre mudança climática que começa nesta segunda-feira, 7.

 Isso não significa, no entanto, que o continente gelado não tenha uma voz nas conversações patrocinadas pelas Nações Unidas e que têm o objetivo (que só deve ser atingido em 2010) de elaborar um conjunto de compromissos obrigatórios para o combate e mitigação do aquecimento global.

 

Como um continente “dedicado à paz e à ciência” – palavras do mesmo tratado que congelou as pretensões territoriais sobre a Antártida até meados deste século – a região estará presente em Copenhague tanto como objeto de uma série de estudos científicos quanto como fonte de imagens eloquentes, das quais a desintegração da geleira Larsen B, usada no documentário Uma Verdade Inconveniente, talvez seja a mais famosa.

 

Larsen B era uma gigantesca massa de gelo flutuante presa à face leste da Península Antártica, que se despedaçou e se soltou do continente. O gelo quebrado formou uma nuvem de icebergs que avançou mar adentro.

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Fragmentação de icebergs em Larsen B. Imagem da Nasa

Segundo a Nasa, 3.250 quilômetros quadrados de gelo desintegraram-se num período de 35 dias, a partir do fim de janeiro de 2002. Entre 1997 e 2002, a geleira perdeu 5.700 quilômetros quadrados.

 A Península Antártica, uma projeção do continente que chega a cerca de 900 km do extremo sul da América do Sul, é uma das regiões do mundo que mais rapidamente se aquecem, tendo ganho 3° C enquanto o restante do planeta se aqueceu, em média, 0,8° C no último século.

 Uma análise de dados obtidos pelos satélites GRACE e publicada recentemente na revista Nature, indica que todas as regiões da Antártida estão perdendo gelo. A despeito disso, o continente parece estar sendo protegido dos piores efeitos do aquecimento global pelos fortes ventos que o cercam.

 A Antártida acumula mais de 90% de todo o gelo do mundo, e mais de 70% de toda a água doce. Um derretimento total do continente elevaria o nível dos mares em 63 metros. Embora não se preveja uma catástrofe dessas proporções para o futuro próximo, estima-se que o progressivo derretimento da Antártida contribuirá com a elevação prevista do nível dos mares em 1,4 metro até 2100. Segundo relatório do programa Habitat, das Nações Unidas, há no mundo mais de 3.000 cidades costeiras com elevação inferior a dez metros, sendo a maioria delas localizada na Ásia.

 O gelo antártico traz um registro da composição da atmosfera terrestre em eras passadas, um auxílio importante na compreensão da evolução do clima. Esses dados indicam que as concentrações atuais de CO2 e metano, dois gases causadores do efeito estufa, estão em nível recorde para os últimos 800 mil anos.

 Nem mesmo o frio recorde registrado no verão deste ano na área onde o Brasil mantém sua estação de pesquisas antárticas anula o fato de que séries históricas, com cobertura de décadas, revelam um aumento progressivo da temperatura na região. A tabela abaixo é uma miniatura da encontrada no site do Inpe:

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Segundo um relatório apresentado em maio deste ano, a Ilha Rei George, onde fica a Estação Antártica Comandante Ferraz, perdeu 65 km2 de sua cobertura de gelo entre 1950 e 2000, em reação a uma elevação média da temperatura atmosférica de 1,1° C entre o fim dos anos 40 e meados da década de 90.

 A ilha tem 1138 km2, sendo 92% deles cobertos por gelo, com espessura máxima de 395 metros. Dois dos principais atores do mundo em desenvolvimento na reunião de Copenhague – Brasil e China – mantêm bases permanentes em Rei George.