A ciência avança mudando de ideia

Estadão

26 Fevereiro 2010 | 20h24

Em 2007, fiz matéria sobre uma nova hipótese a respeito da origem do asteroide que acabou – ou ajudou a acabar – com os dinossauros há 65 milhões de anos. A ideia dos pesquisadores, uma equipe composta por americanos e europeus, era interessante: descrevia um bilhar espacial, onde uma colisão no cinturão de asteroides teria desencadeado uma série de eventos culminando com o grande impacto em Chicxulub, no México.

Colisão entre asteroides - Divulgação

Colisão entre asteroides - Divulgação

Na tarde desta sexta-feira, entrevistei um astrônomo brasileiro que encontrou furos nessa história: os vestígios deixados pelo impacto mexicano e as características físicas do asteroide que seria o principal remanescente da colisão ocorrida no espaço não batem. É como se, no México, tivesse caído um capô de Scania preto, e o objeto no espaço fosse um paralama de Mercedes branco. Nada a ver.

(Para quem quiser uma descrição menos pitoresca, a reportagem está aqui)

Sempre que faço uma matéria dessas, onde uma descoberta recente leva à contestação de uma hipótese científica anterior, imagino alguém comentando que esses cientistas “só fazem mudar de ideia”. Que a ciência não sabe o que diz: um dia é o asteroide daqui, outro dia é o de lá; um dia café faz mal, no outro, faz bem; e assim por diante.

Essa maleabilidade toda, no entanto, não é uma fraqueza da ciência, mas sua principal força. Hipóteses prosperam ou morrem ao sabor das evidências, e a crítica embasada ao trabalho alheio é parte integral do processo.

Carl Sagan dizia que o estudo da Astronomia ajudava a cultivar a virtude da humildade. Eu diria que a atividade científica em geral ajuda a cultivar a honestidade de mudar de ideia.