A datação do Sudário de Turim

Estadão

13 Abril 2010 | 09h15

Com o retorno do Sudário de Turim à exibição pública, fiquei meio chocado ao descobrir que um colega de redação ainda acreditava haver margem científica para dúvida quanto à natureza do objeto – se uma pintura medieval ou fenômeno inexplicado, talvez milagroso.

Ele também me pareceu um pouco chocado com minha insistência em cravar “pintura medieval” como se essa explicação estivesse acima de qualquer dúvida séria. Pensado depois no assunto, achei que poderia valer a pena fazer um resumo do estado atual da questão.

A melhor referência recente disponível sobre o assunto talvez seja o livro Relics of the Christ (Relíquias do Cristo) escrito pelo investigador Joe Nickell e publicado em 2007 pela Universidade de Kentucky (EUA). Mas Nickell dedica dois capítulos inteiros ao sudário – quase 30 páginas, e várias fotos – então decidi me concentrar no ponto da datação por carbono 14 feita em 1988, e seus descontentes.

Três laboratórios – na Inglaterra, Suíça e Estados Unidos – receberam amostras de tecido do sudário, cada uma com o tamanho aproximado de um selo postal. O método de carbono 14 datou todas do período entre 1260 e 1390. Se todas as três datações estiverem erradas, como podem concordar tão bem entre si, produzindo um intervalo de menos de um século? Se os três testes tivessem sido inválidos, seria de se esperar resultados totalmente díspares. O único jeito de escapar à conclusão de que o sudário é uma obra medieval, então, parece ser aceitar as datações como certas, mas supor que a amostra usada tenha sido viciada de alguma forma.

O problema com a hipótese de contaminação – por exemplo, por bactérias ou pela gordura das mãos de pessoas que manipularam o tecido ao longo dos séculos – é, simplesmente, o fato de que as amostras foram limpas e desinfetadas antes de serem submetidas à datação. Além disso, o físico Thomas Pickett estima que uma contaminação capaz de causar um erro de 13 séculos numa datação de carbono 14 teria de contar com uma massa de contaminantes com o dobro do peso do sudário em si.

Mas as amostras não poderiam ter sido retiradas, inadvertidamente, de uma parte remendada ou restaurada do sudário? O fato é que o local de remoção das amostras foi selecionado cuidadosamente por especialistas em tecelagem e tecidos antigos. Especialistas que estiveram presentes à retirada, juntamente com o então arcebispo de Turim, cardeal Anastasio Ballestrero (o paper sobre a datação saiu na Nature em 1989, e descreve o procedimento).

Claro, é sempre possível criar hipóteses mirabolantes para dar outra interprtetação aos dados – o químico americano Walter McCrone, falecido em 2002, escreveu um livro de mais de 300 páginas explicando seus estudos do sudário para tentar dar conta das objeções existentes até os anos 90 do século passado – mas o fato é que não parece haver motivos razoáveis, além de uma certa teimosia e de apego emocional, para questionar o resultado de 1988. E nem mesmo o Vaticano faz isso.