A ética do placebo

Estadão

20 Julho 2010 | 13h24

Ontem foi uma correria aqui, por conta da divulgação dos resultados de um experimento com gel vaginal contra a aids. Durante a entrevista coletiva em que as notícias (positivas) do estudo foram divulgadas, surgiu uma questão sobre a ética de se realizarem novos estudos antes de liberar o remédio, já que ele parece ser a resposta às preces de muita gente que luta contra a epidemia.

O padrão mais elevado para o teste de medicamentos em seres humanos é o chamado teste duplo-cego aleatório com placebo. Do fim para o começo:

Placebo é alguma coisa que tem cara de remédio, cheiro de remédio, gosto de remédio… mas não é remédio. Pode ser açúcar, farinha, água, corante, amido, etc. Para saber se um novo remédio realmente funciona, cientistas dão a algumas pessoas a droga sendo testada e a outras, o placebo. Depois, comparam resultados. A ideia é que um remédio que não conseguir ser melhor que uma pílula de farinha não vale lá grande coisa.

O teste é aleatório porque a divisão dos participantes entre os que vão receber placebo e os que vão receber a substância ativa é feita ao acaso, por sorteio.

E é duplo-cego porque nem a pessoa que está recebendo a dose, nem o pesquisador encarregado de aplicá-la (ou de entregar as pílulas, o xarope, etc.) sabe se o que está sendo injetado e/ou trocando de mãos ali é o placebo ou a coisa real.

O caráter duplo-cego é importante porque o simples fato de uma pessoa acreditar que está sendo tratada pode ter impacto no resultado do estudo; e porque o pesquisador dificilmente conseguiria deixar de transmitir pistas inconscientes ao paciente, denunciando se o pacotinho entregue contém a possível pílula milagrosa ou uma mera cápsula de amido.  Então, para que um não deduza, é importante que o outro não saiba.

O dilema ético surge quando os pesquisadores acreditam que têm algo realmente importante nas mãos — um método seguro de evitar a aids, uma cura para algum tipo de câncer, um analgésico perfeitamente seguro, etc. — e sentem que estão, deliberadamente, sonegando esse recurso a parte dos voluntários.

Alguém poderia imaginar que é preciso muita frieza para olhar nos olhos de uma pessoa que está sofrendo e, mesmo acreditando que a cura para esse sofrimento está à mão, deliberadamente entregar ao sofredor algo que pode não ser  nada além de farinha de trigo com corante.

A questão é complexa, mas em minha opinião a chave para o dilema está na diferença entre o que se acredita e o que se sabe. O experimentador pode acreditar que a droga em teste funciona e é segura. Mas ele só vai poder saber disso  depois que o estudo estiver pronto e tiver sido replicado. É para isso que os estudos existem: para separar crença de conhecimento.

Claro, há situações de emergência em que o risco percebido de se agir com base numa crença bem fundamentada é menor do que o de esperar pela confirmação científica, mas essa é a exceção, não a regra.

Esse é o caso do gel contra aids? A questão merece debate. Mas os testes duplo-cegos aleatórios com placebo devem continuar conosco por ainda muito tempo.