A falta que o ozônio faz

Estadão

20 Novembro 2009 | 15h35

Meu jornal local favorito, El Pingüino, traz como um de seus principais destaques o fato de ontem ter sido o dia mais quente da primavera em Punta Arenas, com a temperatura atingindo escaldantes 14,5° C. Alguém aí se lembra da última vez em que um recorde de calor, digamos, no Rio de Janeiro foi decidido na fração de grau?

Além de registrar o marco climático, no entanto, o jornal alerta que a região está sob exposição “extrema” de radiação ultravioleta, recomenda que se evitem atividades ao ar livre, que se use chapéu de aba larga e mangas compridas, que se aplique protetor solar com fator de proteção mínimo 15.

Também hoje meus lábios começaram a arder, o que me fez correr para a farmácia mais próxima e comprar um protetor labial (nota pessoal para a esposa: pois é, amor, esqueci de trazer o que você tinha comprado para mim aí no Brasil…).

Segundo o mais recente mapa divulgado pela Nasa na internet, em 17 de novembro, a área do estreito de Magalhães está bem na borda do buraco da camada de ozônio. O ozônio, como acho que todo mundo está cansado de ouvir, é o gás que, nas camadas superiores da atmosfera, breca a parte mais danosa da radiação ultravioleta que chega à Terra, emitida pelo Sol. Nas camadas inferiores da atmosfera, por exemplo na altitude de São Paulo, o ozônio é um perigoso poluente produzido pelo homem.

O ozônio natural, que fica lá no alto, é atacado por gases de uma família de produtos químicos, os CFCs, que já foi largamente utilizada em geladeiras, aparelhos de ar-condicionado e em sprays de vários tipos. Ao contrário dos combustíveis fósseis que vêm causando a mudança climática, no entanto, os CFCs se mostraram fáceis de substituir e já praticamente não são mais usados. No entanto, o consenso científico é de que o buraco aberto na camada de ozônio, que se concentra principalmente sobre a Antártida, precisará de décadas ainda para se fechar.

A ironia da história é que o inventor do processo que tornou os CFCs populares, Thomas Midgley, acreditava que estava trazendo um grande benefício para a humanidade ao apresentar um produto estável, seguro e nada tóxico (há relatos de que, ao presentar sua invenção, ele encheu os pulmões de CFC e depois assoprou a nuvem para apagar uma vela, a fim de mostrar que o gás não tinha interação nenhuma com o organismo humano e, alem disso, não era inflamável).

A questão, claro, é que o gás era seguro e estável por aqui, mas tornou-se veneno ambiental puro ao chegar no alto da atmosfera. Ao contrário do que diz o clichê, nesse caso o buraco era mais em cima.