A guerra dos chimpanzés

Estadão

22 Junho 2010 | 09h25

Cientistas descrevem, na edição mais recente a revista Current Biology, como chimpanzés vâo à guerra: patrulhas de machos se infiltram no território de grupos vizinhos e, quando se veem em superioridade numérica, matam, de emboscada, os moradores da  área — que, então, a tribo agressora passa a ocupar.

Em termos humanos, isso é menos “guerra” do que banditismo covarde e terrorismo. Mas, claro, são animais, e portanto juízos de ordem ética não se aplicam.

No entanto, se é impossível usar o estudo para julgar os macacos, é difícil resistir à tentação de usá-lo para julgar a nós mesmos: chimpanzés, afinal, são nossos parentes vivos mais próximos.  Uma participante da pesquisa, ouvida pela agência de notícias Reuters, descreveu o ataque de uma patrulha a um grupo e fêmeas que carregava dois filhotes de colo. A intenção básica dos agressores, pela descrição, era matar os bebês.

Essa sanha pelo infanticídio me fez lembrar de uma passagem bíblica — o início do capítulo 15 do primeiro Livro de Samuel, quando o profeta transmite as ordens de Jeová a Saul, rei de Isarel, para o modo de condução da guerra contra os amalecitas: “Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver, e nada lhe poupes; porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos”.


Ouso especular que há uma linha evolutiva ligando o infanticídio dos chimpanzés ao édito divino pelo genocídio dos amalecitas, e que talvez possa ser resumida pela metáfora do “gene egoísta”: a morte das crianças efetivamente põe fim à linhagem genética “inimiga”. A eliminação da prole do adversário, de fato, não é algo incomum na natureza.

O principal autor do estudo sobre a guerra dos chimpanzés, John Mitani, acredita, no entanto, que seus resultados podem ser mais úteis para entender não a guerra entre grupos humanos, mas a evolução da cooperação — já que as patrulhas são empreendimentos cooperativos entre os machos, que se organizam e depois dividem os espólios.

O que me faz lembrar de outro texto, não mais bíblico — a “graphic novel” Skreemer, escrita por Peter Milligan, que se passa num futuro pós-apocalíptico dominado por grupos mafiosos.

Em um dado momento, um personagem diz a outro que a quadrilha  — entendida como um grupo de pessoas unidas para sobreviver e enriquecer às custas da exploração, agressão e morte dos que são “de fora” — é a forma mais fundamental de organização social humana.

O fato de sermos capazes de ir além disso é certamente uma vitória, mas não custa nada lembrar que a tentação de formar quadrilhas e “patrulhas de chimpanzé” sempre estará lá embaixo, à espreita. O preço da humanidade, enfim, é a eterna vigilância.