A (nem tão) longa marcha

Estadão

02 Dezembro 2009 | 16h24

Nesta manhã, saí para acompanhar um biólogo que foi instalar experimentos ao longo da costa da Península Keller, onde fica a estação brasileira na Antártida. Em princípio, a viagem ia ser feita num veículo especial, mas a neve estava tão fofa que as lagartas não conseguiram tração — resultado, todo mundo a pé.

Tivemos de fazer a caminhada usando raquetes de neve amarradas às botas. Tomei um capote no terceiro passo, quando pisei com um pé na raquete do outro — por sorte, como já disse, a neve estava fofa!

snowshoes

O modelo de sapatos de neve da foto acima não foi o que usei — os que me deram são de uma geração mais nova.  Os acima foram usados pelo nosso guia, o alpinista da estação. No caminho, encontramos focas e pinguins — como a beldade abaixo.

fofoca2

A primeira parada foi em Punta Plaza, uma base remota localizada junto a uma rocha imponente no litoral. Dali, seguimos para um trecho de praia chamado Ipanema. Lá, uma decepção: o motor do equipamento de pesquisas estava quebrado, e teria de ser trazido de volta. O cientista que cuida do projeto, Eduardo Delfino, tentou improvisar um trenó, mas não deu muito certo, e a coisa teve de vir no braço.

Delf

Por sorte, na volta encontramos um veículo de neve que estava ajudando a descarregar comida do navio Ary Rongel — temos vegetais frescos! — e que topou levar o motor junto. No fim, todo mundo acabou ajudando um pouco a retirar a carga do bote que tinha vindo do Ary. Eu carreguei uma caixa enorme de ovos (sem quebrar) e uma de alho.

descarrego

Fizemos a maior parte do percurso de volta não pela neve, mas pela praia, formada por grandes rochas escuras — a sensação era a de fazer um costão interminável. Mas a vista mais que compensou o esforço.

praia

Voltamos a Ferraz por volta de meio dia e meia, quase quatro horas depois de termos saído, para um percurso — ida e volta — de no máximo quatro quilômetros. Andar na neve fofa me deixou com dor nas pernas e umas protobolhas nos pés, mas valeu a pena. Ainda que a preocupação em não cair atrapalhe um pouco a apreciação da paisagem, o passeio confirmou a verdade de uma frase que se ouve muito por aqui: na Antártida, não há dois dias com a mesma paisagem no mesmo lugar.

ferrazvolta

Acima, Comandante Ferraz pleno degelo.