A partida de futebol é um bom experimento científico?

Estadão

14 Abril 2010 | 11h04

Com o campeonato paulista chegando ao fim e a Copa se aproximando, lembrei-me de um artigo que me chamou atenção ano passado, no Arxiv — uma espécie de grande vitrine de estudos, ideias e especulações da física, matemática e áreas correlatas — que explorava a seguinte provocação: suponha que um cientista queira saber qual de dois times de futebol é o melhor. Fazê-los jogar entre si é um bom jeito de descobrir isso?

A resposta — depois de

— é que não. Aqui, abro um parêntese sobre a prática científica: quando um pesquisador realiza um experimento para testar uma hipótese, não basta o resultado bater com o previsto. É preciso excluir a possibilidade de o resultado positivo ter ocorrido por mero acaso. Um experimento razoável é um que tem só 10% de chance de ter dado o que deu por pura sorte. O padrão tradicional de qualidade é 5%, mas há quem defenda que a coisa só devia valer mesmo de 1% para baixo.  Fecha o parêntese.

A partida de futebol, concluem os autores do trabalho, só se torna um experimento válido sobre a qualidade relativa dos times quando a diferença do placar é superior a 3 gols. Se for de 4 pra cima, melhor ainda. Num esquema como o de uma copa do mundo, a chance de o melhor time levar o caneco, estimam os autores, é de menos de 33%.

Imagino que essa conclusão não seja exatamente uma novidade para os fãs do esporte — “só no futebol time ruim tem chance de vencer time bom” é um chavão conhecido — mas uma sutileza da análise é que ela não leva em conta a qualidade geral dos times (por exemplo, o fato de que a seleção brasileira é melhor que a do Brunei), mas sim  a qualidade efetiva no momento do jogo.


Ou seja, o “time bom num dia ruim”  entra no cálculo já como “time ruim”. O que o trabalho tenta captar, por meio de probabilidade bayesiana, é a relação entre qualidade demonstrada em campo e placar.

E o que tudo isso significa? Para os especialistas em matemática e estatística, um bom jeito de exercitar suas perícias e debater probabilidade condicional. Para os demais, um bom argumento de mesa de bar pós-partida: “Menos de 3 gols de diferença? Então não provou nada…!”