À prova de morte

Estadão

04 Agosto 2010 | 11h07

deathproof

Fui ver o mais recente filme de Tarantino a estrear no Brasil e, além de sair do cinema com a impressão de que a história teria se beneficiado de um corte de pelo menos meia hora na segunda parte, me vi pensando na física das colisões automobilísticas.

Tenho um livrinho aqui em casa chamado Gue??timation que contém uma série de cálculos rápidos envolvendo leis e conceitos básicos da física. Um deles trata, exatamente, de uma batida de carro.

Acidentes automobilísticos são perigosos por causa da parada abrupta. Como diz a velha anedota, não é a queda do décimo andar que mata, e sim o contato súbito com o solo.

Deter um corpo em movimento significa mudar sua velocidade — de fato, significa reduzir sua velocidade a zero. Pelas leis de Newton, o que causa mudança na velocidade de um corpo é a aceleração, e o que produz aceleração é uma força. Quanto maior a aceleração, maior a força necessária para produzi-la.

Uma coisa curiosa sobre aceleração é que ela é inversamente proprcional ao tempo: quanto menos tempo você tiver para fazer uma coisa parar, mais aceleração (e, portanto, mais força) você precisará produzir.

Assim, a força necessária para parar um carro em 1 segundo é 10 vezes maior que a ncessária para fazer o mesmo em 10 segundos. Esse é um dos motivos pelos quais a frente dos automóveis amassa tanto: para dar ao corpo dos passageiros mais tempo para desacelerar. E não precia ser muito tempo; qualquer fração de segundo entre a parada instantânea do para-choque e a parada no interior do veículo já ajuda.

Uma variação de 0,2 segundo para 0,4 segundo, por exemplo, representa uma redução, pela metade, da força sentida.

O Gue??timation oferece uma análise diferente, usando energia e trabalho — os autores computam a energia cinética do passageiro e o trabalho necessário para zerá-la. Como trabalho é força multiplicada pela distância em que a força age, o achatamento da frente do automóvel ainda cumpre a função de permitir que a força final seja menor. Mas, neste caso, o que entra na conta é o tanto que o metal se amassa, e não o tempo que ele leva para se amassar.

Em À Prova de Morte, o serial-killer interpretado por Kurt Russell tem um carro em que o compartimento do passageiro é isolado e não dispõe de equipamentos e segurança, como cinto ou airbag. O resultado e que as vítimas se veem à mercê das forças em jogo à medida que o veículo breca ou acelera.

O personagem de Russell é apresentado como um ex-dublê maluco, mas podia bem ser um professor de física psicopata. Isso daria um bom filme.