A vida antes do Hubble

Estadão

26 Abril 2010 | 08h18

A menos que você tenha passado os últimos cinco dias num vale perdido cercado por criaturas pré-históricas, provavelmente a informação de que o Telescópio Espacial Hubble completou 20 anos em órbita no último fim de semana já lhe é familiar. Em vez de dar a notícia, portanto, eu gostaria de sugerir uma reflexão: imagine como era o mundo antes do Hubble.

Não é tão fácil quanto parece; na verdade, é quase tão difícil quanto pensar na vida antes da internet, do celular, da televisão. Toda uma geração humana nasceu e chegou à idade adulta sob uma dieta regular de imagens feitas pelo telescópio e diligentemente divulgadas na TV, nas revistas e em jornais — que, a propósito, começaram a experimentar com a impressão de fotos em cores mais ou menos na mesma época em que o Hubble iniciava sua jornada.

Em termos de uma vida humana: o piloto do ônibus espacial que pôs o Hubble no espaço, Charles Bolden, era um ex-piloto de testes da Marinha e veterano da Guerra do Vietnã — para os Estados Unidos, isso é duas guerras atrás! Hoje, 30 anos depois da guerra e 20 depois do Hubble, Bolden é um respeitável general reformado. E o atual administrador da Nasa.

Em termos do imaginário humano: a ideia que a maioria das pessoas tinha do espaço entre as estrelas havia sido moldada pela visão do céu noturno, ou pelas paisagens negras, marcadas por pontos brancos, da série Jornada nas Estrelas ou do filme Guerra nas Estrelas. As visões majestosas de nuvens de gás multicoloridas tiveram de esperar o supertelescópio.

O aglomerado  Hodge 301 na nebulosa da Tarântula. Hubble/Nasa-ESA

O aglomerado Hodge 301 na nebulosa da Tarântula. Hubble/Nasa-ESA

E olhando para a imagem nítida de Marte feita pelo Hubble durante a oposição de 2003 (quando Marte e Terra atingiram uma distância mínima entre si, de meros 68 milhões de quilômetros) é difícil imaginar que, durante muitos anos, imagens feitas a partir de telescópios baseados no solo causaram dúvidas quanto à presença de canais artificiais, e talvez mesmo de vegetação, na superfície do planeta vermelho.

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Mas nem tudo sempre deu certo para o telescópio espacial. Ele chegou míope ao espaço, e teve de ser “salvo” por uma missão de emergência. Há cerca de sete anos, a Nasa chegou a  anunciar que iria abandoná-lo, antes que a opinião pública a forçasse a mudar de ideia. Mais do que uma história de sucessos, o Hubble tem uma vida marcada por quase tragédias e superações.

Um folheto de quatro páginas distribuído pela Nasa resume as

viabilizadas pela existência do Hubble. Eu me lembro do choque que senti, na antiga redação da Agência Estado — era 1998 ou 1999 –, quando recebi a notícia da descoberta “número um”: a expansão do Universo está acelerando. Hoje, todo mundo já ouviu falar em “energia escura”, mas até então vivíamos (bom, pelo menos quem se interessa por esse tipo de coisa, claro) na expectativa do “Big Crunch”, quando a expansão iria parar e reverter-se, reduzindo novamente o tempo e o espaço a nada.

Uma das provas da expansão acelerada foi obtida graças a fotos de supernovas distantes feitas pelo telescópio.

É sempre bom lembrar que, além da Nasa, a Agência Espacial Europeia (ESA) também é dona do Hubble. Existe mesmo um site europeu sobre o telescópio que merece ser visitado tanto quanto o americano. Ele fica em http://www.spacetelescope.org/