A vida como ela é

Estadão

15 Fevereiro 2010 | 09h57

Dia desses eu estava no ônibus, quando encontrei um conhecido que não via há muitos anos; um bom sujeito, ativista cultural — a última notícia que tivera dele dava conta de que havia organizado uma escola de samba numa cidade do interior paulista, e com sucesso . Mal me reconheceu, perguntou:

“Ainda está no jornal?”

“Sim”, respondi, meio ressabiado.

Quando um jornalista é reconhecido como membro da categoria, fora de uma situação profissional, geralmente acontece uma de duas coisas: (1) o interlocutor assumir que você sabe qual a grande verdade impublicável sobre o governo, a oposição ou a nova edição do BBB, e que está disposto a divulgá-la por meio de um papo informal na festinha de  aniversário do sobrinho ou, como era o caso, no corredor do ônibus; (2) que você tem o poder de transformar a briga que ele teve com o vizinho ou com a padaria da esquina na próxima manchete do Jornal Nacional.

Não posso responder pela categoria como um todo, mas no meu caso nem (1) e nem (2) são exatamente verdade, o que costuma levar a um pequeno constrangimento das partes.

“Que área você cobre?”, perguntou o conhecido.

“Astronomia”, respondi — o que era uma verdade parcial (astronomia é uma das coisas que acompanho), e que tinha uma boa chance de matar qualquer inclinação conspiratória da conversa logo ali.

Depois de uma pausa, meu interlocutor disse:

“Ah! Você faz o horóscopo! Que legal!”

Com meu mais beatífico sorriso, corrigi:

“AstroNOMIA, não AstroLOGIA”.

O que fez o sujeito parar para uma pausa um pouco maior.

“É no Estadão que você trabalha, né?”

Assenti.

“Então você escreve no Paladar!”