Adiós, amigos!

Estadão

17 Dezembro 2009 | 22h09

Como o Luciano do Inpe havia antecipado em seu comentário à postagem anterior, partimos. E, mais importante: chegamos, sãos e salvos, ao Chile, por volta das 17h.

Começamos a desembarcar na estação antártica chilena de Eduardo Frei (para quem estiver curioso, o nome homanageia o pai do atual candidato à Presidência do país) por volta das 8h30 da manhã, depois de subirmos a bordo do Ary Rongel às 2h da madrugada. Como tinha muita gente para vir — além de meia dúzia de jornalistas, havia ainda a equipe do Arsenal de Marinha do Rio que voltava para casa e um grupo de cientistas, que inclui a filha da dona Celia. A foto abaixo mostra o terceiro bote a chegar a Frei repleto de brasileiros na manhã desta quinta. É o dos cientistas.

botecientistas

Fiquei muito pouco tempo em Frei na primeira vez em que passei por lá, porque os chilenos nos deram uma carona de trator de neve para que pegássemos rapidamente o bote que nos levou ao navio Almirante Maximiano, em meados de novembro. Desta vez, no entanto, não havia trator disponível, e todo mundo que chegou à praia de Frei teve de subir a pé até o hotel de trânsito que fica junto à pista de aviões.

A distância a caminhar foi estimada por um oficial da Marina Brasileira com quem falei em mais de 2 km, e o terreno estava péssimo — neve fofa e escorregadia, ou finas camadas de gelo cobrindo poças de água gelada. Esta foi a primeira vez em que tive de lançar mão de um procedimento que havia lido nos manuais sobre a Antártida que a Marinha me enviou antes da viagem: tirar as botas e trocar as meias molhadas de gelo e água gelada por um par seco. Por quê? Porque enfiei o pé direito até o joelho numa poça, oras.

(Fiz a subida carregando a mochila do jornal, contendo laptop e câmera de vídeo. Ao todo, a carga pesa uns 7 kg. Não tenho fotos dessa jornada porque estava muito ocupado com atividades prosaicas, tipo respirar; deixo a recomendação de que futuras expedições à Antártida sejam cobertas via netbook ou smartphone.)

Já disse que Frei tem um hotel de trânsito. O lugar inclui um salão amplo e aquecido, com um retrato da presidente Bachelet e um cafezinho grátis para quem fica lá esperando voo. Acho o café que se bebe no Chile meio sem graça, mas a cavalo dado não se olha os dentes, e eu estava com uma sede danada. Aproveitei que o salão é decorado com espelhos para fazer uma foto de mim mesmo. Compare com a que ilustra o topo desde blog e veja o que 20 dias de aventura e emoção fazem com a cor da barba do cidadão.

eunohotel

Boa parte da manhã foi passada em apreensão, pois não sabíamos se o Hércules da FAB que viria nos buscar teria teto para pousar em Frei. O voo já havia sido adiado por causa do mau tempo. Mas, finalmente, por volta das 11h da manhã, o aparelho tocou a pista.

touchdown

Nosso embarque não foi imediato: um grupo de VIPs — altas patentes militares e figuras do mundo político — estava chegando no voo, e partiu de helicóptero para conhecer Comandante Ferraz. Eles iriam voltar conosco, e por isso ficamos esperando o tour terminar.

Frei tem uma loja de suverines, mas não fui lá: uma pequena confusão envolvendo passaportes e a oferta de um catanho (isso é marinhês para lanche pré-preparado, tipo um saquinho contendo sanduíche, iogurte e barra de cereais) para quem retornava ao Brasil conspiraram para manter todo mundo orbitando o hotel de trânsito.

O avião decolou, finalmente, às 14h30. Abaixo você vê a configuração interna do Hércules, com os passageiros em seus lugares.

hercules

No voo, tivemos a sempre presente Tia Alice, uma senhora prestes a fazer 82 anos e que é a comissária de bordo com mais tempo de serviço no Brasil, e que atua pondo ordem nos voos para a Antártida. Também recebemos o lanche, novamente superior ao de muita classe econômica. Desta vez, o meu veio com polenguinho!

Enfim, cheguei a Punta Arenas, são e salvo; tomei banho com um banheiro inteiro só para mim! A civilização me recebe de braços abertos.

E este blog acaba.

Ainda tenho uns dias para passar aqui em Punta, e pensei em blogar sobre eles, mas depois da Antártida, isso seria apenas um arrastado anticlímax. Então, voltando a citar Cary Grant, melhor sair antes que comecem os bocejos.

Andei tentando bolar algo de inteligente para dizer sobre o impacto e o poder da Antártida, sobre as paisagens que fascinam e intimidam, maravilham e assustam; sobre as coisas que aprendi a respeito do potencial liberado quando há interesse, planejamento cuidadoso, senso de propósito e disposição para cooperar.

Ou ainda, fazer um censo de todas as coisas que a minha mulher nunca vai acreditar que fiz (descer escadinha de navio durante a neve e vento forte, andar de bote no meio da chuva, subir montanha para ver paisagem, evitar beber muito nas festas, etc)

Mas imagino que o melhor, mesmo, seja agradecer ao pessoal de Comandante Ferraz – e da Marinha do Brasil – pela oportunidade e pelo tratamento sempre cortês, amigo, interessado; e aos colegas da imprensa, concorrentes ou não, que ajudaram a tornar o trabalho mais animado.

Mas, principalmente, aos cientistas que atuam no continente gelado. Passar meses longe da família, oscilando entre o tédio abissal e o risco de vida, afastado  de praticamente todos os pequenos confortos da civilização, de coisas que quem está mais ao norte nem nota que existem — tudo isso para caçar bactérias, medir a sujeira do ar e ver como o efeito estufa está afetando a ecologia, entre outros projetos, é que é esporte radical. Lutar jiu-jitsu com um gorila ensandecido é fichinha em comparação.

A todos os que se deslocam à fronteira do mundo habitável para expandir a fronteira do conhecimento humano em geral, e a ciência brasileira em particular, meu muitíssimo obrigado.

PS

Para quem quiser continuar com uma janela aberta para o dia-a-dia de Ferraz, o blog das meninas do Projeto Zooplâncton é uma boa pedida!