Armas no espaço?

Estadão

29 Junho 2010 | 08h49

Quase ninguém notou, parece, mas ontem, durante o primeiro tempo de Brasil e Chile, funcionários da Casa Branca  realizaram uma entrevista coletiva para apresentar a nova

para o uso do espaço além da atmosfera da Terra.

No Twitter, muita gente ligada ao setor ficou surpresa com o anúncio — jornalistas foram convidados a participar da coletiva, literalmente, em cima da hora. O pessoal da @NasaWatch disse que foi avisado com “seis minutos de antecedência”.

A estratégia do chamado programa espacial civil — basicamente, o que a Nasa vai fazer — já havia sido anunciada pessoalmente, pelo próprio presidente Obama, em abril deste ano. O que a “política espacial” faz é dar mais algumas informações sobre os aspectos diplomáticos e, sim, militares do uso do espaço.

Os pontos que chamam mais atenção são a ênfase em cooperação internacional, a preocupação com os perigos do lixo espacial, a valorização do papel da iniciativa privada e, por último mas não menos importante, a notável mudança de tom em relação à  política anterior, divulgada em 2006 e elaborada sob o governo Bush.

Em 2006, a Casa Branca de Bush emitiu um documento prepotente (para não dizer belicoso)  anunciando que os EUA se reservavam o direito de “negar acesso ao espaço” a países inimigos e que rejeitariam tratados limitando a opção de levar armas ao espaço.

Em contraste, a política de Obama pede o “uso responsável e pacífico” do espaço por todos e se propõe a, em princípio, discutir tratados de limitação de armas.

O uso do espaço como base para armas é uma questão antiga, e antecede a delirante Iniciativa de Defesa Estratégica de Ronald Reagan.

Ilustração de 'Guerra nas Estrelas' ao estilo Reagan

Ilustração de 'Guerra nas Estrelas' ao estilo Reagan

 

Uma doutrina — acho que articulada pelo escritor de ficção científica Robert A. Heinlein, mas posso estar enganado — propõe que o espaço é o “terreno elevado definitivo”: da mesma forma que um homem com uma metralhadora, no alto de um morro, é capaz de dominar todo o terreno mais baixo ao redor, um país com uma dúzia de bombas em órbita… Bom, dá para ver aonde o raciocínio vai.

Nem todo mundo compra a ideia, no entanto (uma arma desse tipo em órbita, antes de ser uma ameaça, é um ótimo alvo). Mas, hoje em dia,  é provável que armas, se forem colocadas no espaço, não venham a ser apontadas para  a Terra, e sim para o próprio espaço, onde poderiam abater a infraestrutura de comunicações, dados, observação e navegação do inimigo.

Em anos recentes, China e EUA flexionaram seus músculos nesse sentido.  Em 2008, os Estados Unidos abateram com um míssil um satélite descontrolado que ameaçava cair na Terra.

Embora a iniciativa tenha sido divulgada como uma medida de segurança (para proteger a população da área onde o objeto iria cair e/ou para evitar que equipamentos sensíveis que sobrevivessem à reentrada caíssem em mãos erradas), o feito parece ter sido uma resposta à China, que em 2007 havia testado uma arma para abater satélites.