Base espacial para a Antártida

Estadão

15 Dezembro 2009 | 07h45

A Antártida é talvez o lugar mais parecido com outro planeta a que se pode chegar sem sair da Terra. Não surpreende, portanto, que a proposta tecnológica para uma estação brasileira no continente antártico seja descrita pela coordenadora do projeto como “quase uma nave espacial”.

 

Ainda não existe um compromisso formal para estender a presença brasileira na Antártida da periferia – a Ilha Rei George, onde fica a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), está a mais de 3.000 km do polo sul – para o continente, onde países como Rússia, EUA e Índia mantêm suas principais bases. Mas a arquiteta Cristina Engel de Alvarez, que participa do programa antártico desde os anos 80, diz que “na hora que o País quiser, tenho de estar com essa tecnologia à mão”.

 

Os desafios de chegar para ficar ao continente antártico são significativamente maiores que os de manter Comandante Ferraz. Não só as dificuldades logísticas mais formidáveis, como o ambiente é mais desafiador. A temperatura anual média em McMurdo, uma base americana no litoral do continente, é de -18° C; em Ferraz, mesmo nos anos mais frios, ela nem mesmo se aproxima dos dois dígitos negativos.

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 A habitação proposta para abrigar brasileiros nessas condições, chamada de Módulo Antártico Padrão (MAP), prevê áreas de trabalho e alojamento separadas por um espaço central de convivência, dotado de mezanino. O material usado seria um sanduíche de madeira por dentro, isolante térmico no meio e PVC por fora.

 

O revestimento plástico foi escolhido por ter mostrado uma performance adequada na moldura das janelas de Ferraz, e não ser passível de corrosão pelos elementos, como o metal usado na estação atual. “PVC tem manutenção zero”, diz Cristina, que é coordenadora do Laboratório de Planejamento e Projetos da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

 

Além disso, diferentemente de Ferraz, que depende da queima de de  óleo para gerar eletricidade, o MAP teria como fontes principais de energia o sol e o vento. Um gerador a combustível – “de preferência, biodiesel”, diz a arquiteta – atuaria de forma complementar e para emergências. Água poderia ser extraída do ambiente, mas também seria reutilizada ao máximo.

 

Para decolar, o MAP precisa de dinheiro – e dois anos de trabalho, estima Cristina. “O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) viu méritos no projeto, mas a perspectiva de apoio não se concretizou”, disse ela.

 

Uma vez completados o projeto e os testes premilinares no Brasil, uma versão piloto do MAP seria montada em Ferraz. Isso não significa, no entanto, que a estação atual, com paredes de metal e geradores que queimam combustível fóssil, será substituída.

 

“Ferraz vai muito bem, obrigado”, diz Cristina. “Tem problemas, mas que são contornáveis. Somos uma estação exemplar em termos de impacto ambiental”. Ela lembra que a Ilha Rei George já tinha um meio ambiente modificado por ação humana muito antes de os brasileiros chegarem. A própria área onde se localiza Ferraz foi um posto britânico de apoio à caça de baleias.

 

Cientistas brasileiros já mostraram interesse em realizar pesquisas no continente antártico, indo mais ao sul do que Ferraz permite. No ano passado, o glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) chegou a 1.000 km do polo, deixando a EACF 2.000 km para trás.