Bill Gates e a tecnologia do resfriamento global

Estadão

12 Maio 2010 | 08h29

Segundo esta nota publicada no website da revista Nature, causou um certo alvoroço a notícia de que Bill Gates concedeu uma verba de US$ 300.000 para o Silver Lining Project, um programa de pesquisas que busca entender a relação entre as nuvens e a mudança climática.

A causa da polêmica, de acordo com este artigo do Times de Londres, é o fato de que parte do projeto envolve a criação de máquinas capazes de sugar grandes quantidades de água dos oceanos, converter a água em gotas microscópicas e arremessá-las a uma altitude de 1 km.

Nuvens mais brancas podem reduzir o efeito estufa

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A teoria é de que essas gotas fariam aumentar o albedo — a capacidade de refletir luz do Sol de volta ao espaço — das nuvens, o que reduziria a absorção de energia pela superfície do planeta e, por tabela, o aquecimento global.

Ano passado, a Scientific American publicou um artigo sobre “iates de albedo”, um plano para fazer exatamente isso.

A questão torna-se delicada porque isto representa um projeto de “geoengenharia” — manipulação deliberada do clima terrestre — e, ainda por cima, financiado por Bill Gates, que para muita gente ainda é a coisa mais próxima de um vilão de filme de James Bond que existe no mundo real (embora Steve Jobs esteja quase tomando seu lugar neste quesito; eu, pessoalmente, sigo votando no Bin Laden).

Não nego que essas coisas precisam ser todas muito bem planejadas e discutidas, mas acho muito peculiar a aversão violenta, automática e quase instintiva que a ideia de “manipulação deliberada” de algum aspecto em larga escala da natureza causa em tanta gente.

Digo, a humanidade vem manipulando o clima, a biodiversidade, a composição da atmosfera e dos oceanos, o albedo da superfície terrestre e várias outras características naturais do planeta há milênios — só que de forma inadvertida, acidental, burra e atabalhoada. Por que fazer isso de forma consciente, deliberada, planejada e proposital seria pior?