Buscando vida no fundo do mar gelado… e encontrando

Estadão

14 Dezembro 2009 | 09h05

Sete horas, nove tentativas e nenhum sucesso, sob neve, vento cortante e sensação térmica de vários graus abaixo de zero. Para o grupo de pesquisadores coordenado por Marcelo Bernardes, da Universidade Federal Fluminense (UFF), é apenas mais um dia de trabalho na tarefa de estudar a biodiversidade do fundo do mar na Baía do Almirantado, Ilha Rei George, Antártida.

Mais cedo, a tarefa de coleta de sedimentos a uma profundidade de 100 metros – realizado com um equipamento chamado box core, uma pesada caixa metálica dotada de tenazes e presa a um guincho – havia sido bem-sucedida logo na segunda tentativa, trazendo à popa do Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, da Marinha Brasileira, uma rica amostra de lama e formas de vida.

É a fase seguinte da operação, com lançamentos do box core a uma profundidade de 300 metros, que manteve a equipe de Bernardes – e o pessoal da Marinha, que precisa manobrar, posicionar o navio e operar o guincho – ocupados praticamente das 17h de quinta-feira, 9 de dezembro, à zero hora de sexta, sem que o box core conseguisse realizar o que os cientistas chamam de uma “coleta válida”.

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O box core, suspenso em seu cavalete antes de descer ao mar

O equipamento é, a um só tempo, pesado e delicado. As tenazes são mantidas abertas por travas projetadas para se soltarem no impacto com o fundo do mar, e a mandíbula se fecha com o puxão do guindaste do cabo de aço. Muita coisa pode dar errado: uma trava pode emperrar, impedindo o fechamento de um dos lados da caixa; o box core pode atingir uma encosta ou plano inclinado, realizando uma “mordida”imperfeita; mesmo o vento forte pode atrapalhar.

“O box core precisa de uma superfície horizontal para funcionar”, explica Bernardes. A faixa de profundidade de 300 metros não parece atender a esse requisito.

O projeto, coordenado no navio por Bernardes e encabeçado por Lúcia Campos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que não se encontrava na Antártida durante a coleta que acompanhei, é o Mabireh – Biodiversidade em Relação à Heterogeneidade Ambiental na Baía do Almirantado e áreas adjacentes. Seu objetivo é caracterizar a biodiversidade da baía, relacioná-la à de áreas próximas e, no futuro, da plataforma continental brasileira, diz o pesquisador. “Vamos procurar adaptações e diferenças entre os organismos em cada ambiente”, explica Bernardes.

A riqueza da vida trazida a bordo nas coletas bem-sucedidas mostra, nas palavras do cientista, como o ambiente antártico, inóspito, ainda assim é “extremamente diverso”.

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E depois, aberto, com o resultado da coleta a 100 metros

Ofiuroides, criaturas semelhantes a estrelas-do-mar, aparecem com frequência, e às vezes em quantidades tão grandes que ficam “de braços dados” no fundo do mar, diz ele. Recentemente, a equipe encontrou também corais brancos – se atingidos pelo chamado branqueamento, um fenômeno associado ao aquecimento global que vem matando corais em várias partes do mundo, ou se por uma adaptação específica ao ambiente antártico, é algo que ainda terá de ser determinado.

Além de pesquisar a vida no fundo do mar, o projeto analisa o sedimento onde essa vida existe. A lama que sobe no box core é prensada em cilindros e fatiada cuidadosamente, as amostras preservadas para estudo.

Depois das várias tentativas frustradas com o box core a 300 metros, os cientistas decidem fechar a madrugada – com o céu antártico ainda claro – usando a draga, uma pequena cesta que é arrastada pelo navio por um curto trecho e depois, suspendida.

A dragagem, que prossegue no dia seguinte, parece ser a solução para a faixa de profundidade de 300 metros, gerando bons resultados. No ano que vem, o box core provavelmente não voltará a mergulhar rumo à faixa de 300 metros da baía.