Cadê todo mundo?

Estadão

19 Fevereiro 2010 | 08h33

Acho que ninguém consegue escrever sobre ciência durante muito tempo sem cair na tentação de cometer um comentário sobre a Questão de Fermi. É uma espécie de rito de passagem. E com o fim-de-semana chegando, talvez os leitores se interessem em gastar algum tempo livre para  pensar  no assunto…

Bom, para quem não está familiarizado com este problema em particular: a Questão de Fermi deve o nome ao físico italiano Enrico Fermi (1901-1954), ganhador do Prêmio Nobel de 1938 e um dos criadores da primeira bomba atômica, que a propôs durante um almoço com outros cientistas em 1950 (para um relato detalhado das circunstâncias e da questão em si,

Documento

). De forma bem resumida, a “questão” é: onde estão os extraterrestres?

Não é uma pergunta tão tola quanto parece. Os cálculos exatos são meio demorados e um tanto quanto tediosos, mas levando-se em conta a idade da nossa galáxia, a Via-Láctea (cerca de 8 bilhões de anos) o tamanho dela (100.000 anos-luz), as estrelas que contém (mais de 200 bilhões) e o tempo que a Terra levou para produzir vida inteligente (uns 4 bilhões de anos), parece surpreendente que (a) nenhuma outra civilização tecnológica tenha nos precedido em toda a galáxia, e que (b)  ainda não tenhamos encontrado nenhum sinal dela.

discosvoadresCena do filme Earth vs Flying Saucers, de 1956. Reprodução

“Sinal dela” não significa discos-voadores ou outros óvnis (que são um assunto à parte) mas coisas mais comezinhas, como ondas de rádio, sondas robóticas (a humanidade, que está no espaço há meros 60 anos, já tem sondas iniciando o avanço pelo espaço interestelar) ou fenômenos astronômicos sem explicação natural e que indicariam a presença de tecnologias avançadíssimas no espaço — por exemplo, geradores sugando toda a energia de uma estrela.

(Um monolito preto entre os anéis de Saturno também não cairia mal, claro)

Bom, então: seria lógico encontrar algum sinal do tipo. Nenhum foi encontrado. Por quê? As explicação mais simples é a de que estamos sozinhos. Vida pode ser abundante lá fora, mas vida inteligente, capaz de viajar pelo espaço, é uma exclusividade da Terra.

Além de desanimadora, essa explicação geralmente é acusada de arrogante. “Como se pode imaginar”, vai o argumento, “que de todas as estrelas da galáxia, apenas a nossa tenha produzido uma raça com o magnífico privilégio de demonstrar teoremas e compor sinfonias?”

De uns tempos para cá, venho me perguntando se a verdadeira “arrogância” não estaria em considerar que “teoremas e sinfonias” são algo de “magnífico”. Digo, é meio suspeito alguém achar que, só porque se faz uma coisa bem, essa coisa é a mais importante do mundo. Aves voam, peixes respiram debaixo d’água, bactérias reproduzem-se sem sexo. Do ponto de vista de cada um desses seres, esses talvez sejam, também, “privilégios magníficos”.

Minha resposta à Questão  de Fermi — totalmente provisória e passível de revisão a qualquer momento — é a seguinte: inteligência não é, do ponto de vista da evolução, uma coisa muito inteligente.

Veja os dinossauros: existiram por quase 200 milhões de anos (ainda existem, de certo modo, na forma de seus descendentes, os pássaros) e só sumiram por causa de um acidente cósmico.

Veja a humanidade: os primeiros vestígios de primatas capazes de criar ferramentas datam de 2 milhões de anos atrás  — 1% do tempo de existência dos dinossauros — e, nos últimos 50 anos desse período, começamos a flertar com o suicídio coletivo por meio de guerra, superpopulação, mudança climática.

Então, que tal essa: não há outras civilizações tecnológicas na Via-Láctea, mas não porque a humanidade tenha sido especialmente ungida para um papel de protagonista no drama cósmico. Mas, simplesmente, porque espécies que produzem civilizações tecnológicas não são, no fim das contas, uma boa ideia.