Célula sintética e Frankenstein

Estadão

20 Maio 2010 | 20h04

A notícia da criação da célula sintética me fez pensar em Frankenstein, o livro que fará 200 anos daqui a pouco (em 2017).

No romance de Mary Shelley, Victor Frankenstein cria um ser humano sintético a partir de pedaços de cadáveres. Na edição desta semana da Science, a equipe de J. Craig Venter anuncia ter ativado a uma célula bactéria sem genoma — para todos os efeitos, morta — a partir de uma montagem sintética de pedaços de DNA.

Usar leveduras para costurar trechos de código genético selecionados a partir de um banco de dados informatizado não é exatamente o mesmo que usar agulha e linha para costurar pedaços de cadáver roubados de cemitério, claro. Mas a ideia de síntese de uma nova vida a partir de restos biológicos dados pela natureza está presente nos dois casos.

O paralelo é ainda maior porque a bactéria “sintética” de Venter é uma cópia de uma bactéria natural, assim como o “novo Adão” de Frankenstein era uma cópia de um animal natural, o ser humano.

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Antes que achem que estou brandindo o velho argumento obscurantista do “complexo de Frankenstein”, ou “há coisas que a humanidade não foi feita para descobrir”, etc, digo que sou do partido dos que acham que o erro de Victor Frankenstein não foi criar vida, e sim traumatizar o pobre do monstro recém-nascido. Hoje em dia, o cientista teria sido preso por abandono de incapaz.

Enfim, criar não é um problema; fugir da responsabilidade, é. Venter parece ter sido bem cuidadoso neste aspecto, consultando autoridades e especialistas em bioética antes de prosseguir. Mas segundo a Associated Press, pelo menos um grupo ambientalista já manifestou preocupação com a possível fuga de bactérias sintéticas para o meio ambiente, e pediu uma suspensão dos experimentos até que haja uma regulamentação governametal em vigor.

Criação num pen-drive

Em análise publicada no Estado de hoje, Fernando Reinach compara o feito de Venter a Jurassic Park,  e oferece a seguinte avaliação: “Minha impressão inicial é que esse experimento demonstra definitivamente que toda a informação necessária para criar um ser vivo pode ser guardada em um arquivo de computador”.