Ciência é ideologia?

Estadão

30 Agosto 2010 | 10h13

No domingo eu participei do lançamento da antologia de histórias de ficção científica Vaporpunk, realizada durante a IV Fantasticon, em São Paulo. Num dos eventos relacionados ao lançamento, um dos organizadores do livro, o escritor carioca Gerson Lodi-Ribeiro, deu uma palestra na qual descreveu brevemente algumas das narrativas que compõem o volume.

A descrição da minha história, que especula como seria o mundo se algumas hipóteses científicas formuladas no século 17 e superadas por desenvolvimentos posteriores tivessem se mostrado corretas, causou um pequeno debate na plateia, o que me deixou feliz e também preocupado.

Feliz porque foi, afinal, um indicador de que a premissa do conto é instigante o suficiente para provocar reações até mesmo em quem ainda não o leu. E preocupado porque algumas pessoas realmente pareciam levar extremamente a sério a noção de que o sucesso ou fracasso de uma teoria científica não passa de contingência histórica, definida por questões culturais e ideológicas. O que é um absurdo.

É evidente que cientistas são seres humanos, imersos na cultura em que vivem, tão sujeitos a pressões políticas, preconceitos e vieses quanto qualquer um de seus contemporâneos. E também é verdade que, em alguns momentos da história — a negação do heliocentrismo pelo Vaticano, a antropologia racista do 3° Reich, a imposição da biologia lisenkoísta por Stálin logo vêm à mente — disputas científicas pareceram ter sido resolvidas por um fiat ideológico.

É preciso lembrar, no entanto, que esses foram momentos excepcionais, episódicos e patológicos: tratá-los como se fossem o curso normal da ciência equivale a dizer que a temperatura normal do corpo humano é 42° C. Ao fim e ao cabo, ao longo dos séculos e a despeito das contingências da história, uma teoria científica deita raízes enquanto outra soçobra por um único motivo: por ser uma descrição melhor da realidade objetiva.

O que constitui uma “descrição melhor” é um tema complexo, mas resumindo eu mencionaria três critérios, que enumero em ordem crescente de importância:

1. Economia: uma teoria é melhor que outra se dá conta dos mesmos fenômenos, mas pressupondo a existência de menos entidades, forças, partículas, agentes, etc. O caso clássico é o da Relatividade Restrita, que tornou desnecessário o conceito do éter luminífero.

2. Poder explicativo: uma teoria é melhor que outra se é capaz de incorporar — isto é, explicar logicamente — fenômenos que não tinham explicações ou eram considerados anomalias na teoria anterior. Aqui o exemplo clássico é o modelo quântico do átomo.

3. Capacidade de propor e realizar previsões: este é talvez o critério mais importante. Uma teoria científica é superior quando permite não apenas explicar as observações feitas no passado, mas também prever o resultado de experimentos ainda não realizados e, até, de sugerir observações que ninguém ainda havia considerado fazer — o caso clássico é o do desvio da luz pela gravidade, um fenômeno inimaginado até que Einstein aparecesse com a Relatividade Geral.

É óbvio que a realidade objetiva é complexa e provavelmente jamais venhamos a ter uma descrição que dê conta de sua totalidade — assim como nenhum mapa jamais dá conta de todo o terreno — mas, da mesma forma que os mapas evoluíram, tornando-se cada vez mais úteis e precisos, a ciência também evolui, produzindo teorias cada vez mais próximas da “coisa como ela é”.

Enfim, teorias científicas não são movimentos literários ou modas, estes sim criações da mente humana moldadas unicamente por contingência histórica e cultural. Os experimentos geram um conteúdo empírico que os fenômenos estritamente culturais são livres para ignorar, mas que o teórico é forçado a levar em consideração.

Esta postagem já vai grande demais, então vou fechá-la com uma citação de Paul Feyerabend: “Como um empreendimento (a ciência) que depende tanto da cultura pode produzir resultados tão sólidos? (…) relativistas de todos os tipos ficam excitados com o componente cultural e esquecem as previsões e a tecnologia”.