Cientistas e videntes

Estadão

18 Março 2010 | 09h35

Em um episódio recente da série de TV The Big Bang Theory, o casal de namorados formado por Penny, garçonete e atriz, e Leonard, físico experimental, tem uma briga porque ele tira sarro do fato de ela consultar videntes. Sem entrar no mérito da sabedoria (ou polidez) de se sacanear as crenças de pessoas próximas em público, o episódio faz uma caricatura bem simpática do ceticismo duro com que as alegações de fenômenos e efeitos ditos “paranormais” são encaradas pelos cientistas em geral.

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Não se trata, porém — ao contrário do que muita gente imagina — de mera antipatia gratuita ou de uma grande conspiração cartesiano-materialista-capitalista para evitar o advento da Era de Aquário. O problema é que esses fenômenos não só nunca foram demonstrados de modo satisfatório, como existem muitas formas conhecidas e comprovadas de falsificá-los.

No caso específico da chamada “leitura da mente”, não se trata apenas do truque amador usado pelos detetives ficcionais Sherlock Holmes  e C. Auguste Dupin para impressionar amigos e clientes, mas de uma disciplina profissional altamente especializada, o mentalismo. Seu maior praticante na atualidade talvez seja o britânico Ian Rowland.

A principal técnica é  a “leitura a frio”, na qual o “vidente” basicamente joga verde para colher maduro: ele finge dar informação quando, na verdade, apenas extrai dados do consulente. Por exemplo, ele pode dizer algo como: “Vejo uma mulher muito importante na sua vida… o nome começa com… vejo um ‘M’… Estou certo?” E descobrir que o cliente tem uma tia, a mãe, ou a namorada chamada Maria (que, aliás, é o nome feminino mais comum no Brasil, o que faz do “M” uma aposta quase certa).

Estatísticas desse tipo, aliás, são a alma do negócio. Entre outras dicas, Rowland explica que a maioria das pessoas está preocupada com um de sete temas: amor, saúde, dinheiro, carreira, viagem, educação e ambições. A ordem varia, claro, de acordo com idade e classe social. Se uma adolescente de classe alta entrar no seu consultório de cartomante em novembro, você dificilmente errará ao adivinhar que ela está preocupada com o namorado, o vestibular e a viagem de férias.

Além disso, diz ele, é possível surpreender o cliente também “adivinhando” uma série de  coisas que são verdade para  a maioria das pessoas, mas que soam extremamente íntimas ou pessoais para o indivíduo — por exemplo, que a joia que ele está usando pertenceu a um parente já morto; que tem muitas fotos guardadas, mas em caixas, não álbuns; que tem livros sobre um tema que já foi muito importante pra ele, mas que não o interessa mais; que tem uma cicatriz no joelho; que se envolveu num acidente com água na infância; e que há um recado velho pendurado na porta da geladeira.

Mesmo que só uma ou duas dessas afirmações sejam realmente verdadeiras em relação a cada cliente em particular, isso deve bastar para chocar todos eles com seu fantástico poder paranormal.

O que só vem mostrar que Leonard estava certo em duvidar do vidente de Penny. Mas ele poderia ter sido mais delicado ao fazê-lo…