Como saber se funciona?

Estadão

23 Fevereiro 2010 | 14h42

Imagine que você de repente fique com um dor de cabeça horrível e que, para se distrair do sofrimento, resolva comer uma banana. E que, duas horas depois, perceba que a dor passou. Neste momento, ocorre-lhe uma inspiração: banana cura cefaleia!

Antes de se converter num apóstolo da bananaterapia – alternativa 100% natural, baseada em produto nacional, às malévolas drogas das multinacionais – no entanto, você resolve se certificar da validade da descoberta. Afinal, o que lhe dá o direito de afirmar que foi a banana que produziu a cura?

Bom, você pode procurar validação em antigos alfarrábios de sabedoria oriental; quem sabe, nas palavras de algum eminente filósofo natural do século XVIII. Ou tomar a atitude, ainda mais radical, de pensar cuidadosamente sobre o que aconteceu.

Nas duas horas que a dor levou para passar, você também tomou um banho quente, um copo de água, recebeu boas notícias por e-mail e leu os quadrinhos do Jornal da Tarde. Qualquer uma dessas coisas poderia ter colaborado com a redução da dor. É possível, até, que a dor tivesse passado sozinha – quem sabe, sem a banana, ela teria durado apenas uma hora, e não duas! É preciso, então, controlar esses fatores.

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Ilustração criada por Telrúnya, sob licença Creative Commons

Recrutando uma tropa de voluntários sofredores de dor de cabeça, você os submete a uma série de situações experimentais: com banana, sem água, sem banho, recebendo más notícias por email, lendo os quadrinhos do Estadão; com banana, com banho frio, tomando suco de laranja, sem ligar o computador, lendo um romance de Paulo Coelho; e assim por diante.

Além desses controles todos, você resolve, ainda, fazer um teste duplo-cego: metade dos seus voluntários vai comer banana amassada de verdade e a outra metade, uma massa docinha de maisena. Nem os voluntários, nem a pessoa encarregada de distribuir os pratinhos sabem o que é o quê, para evitar a interferência de efeitos psicológicos.

Digamos que, depois disso tudo, você descubra que 90% das pessoas que comeram banana, independentemente dos outros fatores, melhoraram da dor de cabeça, contra apenas 40% das que comeram papinha doce de maisena (ou não comeram nada). A bananaterapia está validada!

Bom, ainda não exatamente. É preciso ainda que o seu resultado seja reproduzido de forma independente – isto é, que outras pessoas, fazendo a mesma experiência, obtenham os mesmos números finais. Isso é necessário, primeiro, porque você pode simplesmente ter tido sorte, e o resultado positivo ser apenas uma coincidência feliz; segundo, porque você pode ter feito alguma coisa errada, sem notar ou até (no caso de haver algum tipo inescrupuloso envolvido) de propósito.

Mesmo após uma série de reproduções bem-sucedidas e de ser autorizada a entrar no mercado, a bananaterapia ainda estará sob reavaliação constante. E se um dos voluntários originais desenvolver pedras nos rins? Será que foi culpa da overdose de banana? E pressão alta? Você controlou o experimento para acompanhar a pressão dos participantes? Não? Ops!

Se passar por todas essas etapas e sobreviver a anos e anos de reavaliações, a sua “terapia alternativa” para dor de cabeça simplesmente deixará de ser “alternativa”: estará devidamente incorporada à medicina tradicional.