Construindo a percepção

Estadão

29 Novembro 2010 | 08h49

Uma das frases mais enganosas do amplo vocabulário de clichês à disposição da raça humana é “vi com meus próprios olhos”. A afirmação implica uma espécie de correspondência perfeita e direta entre o que está diante dos olhos, o que o cérebro vê e aquilo que memória registra. Essa correspondência, no entanto, é muito mais tênue do que estamos dispostos a admitir no cotidiano.

A percepção humana é, na verdade, construída: além dos fótons que chegam à retina, o que chamamos de visão é formado também por memórias, crenças, expectativas. O cérebro está constantemente preenchendo lacunas e fazendo suposições a respeito do que temos diante de nós.

Um exemplo clássico disso é o fenômeno conhecido como “constância da cor”: mesmo quando a iluminação lançada sobre um objeto conhecido muda, temos a tendência de continuar a vê-lo em sua cor “correta”: uma maçã verde continua verde mesmo sob a luz amarela de uma lâmpada incandescente, sob o sol claro do meio-dia ou debaixo da luz avermelhada do crepúsculo.

Além disso, os receptores de cor do olho humano se concentram na região central do campo visual; do ponto de vista estritamente físico, a visão periférica humana deveria ser em preto e branco. Mas, ao construir a imagem, o cérebro colore essas áreas.


O bisturi impiedoso da seleção natural faz com que o trabalho inconsciente de preenchimento seja bom o bastante na maioria das vezes, tanto que nem nos damos conta dele.  O papel das crenças e do contexto nesse processo, principalmente, costuma ser fortemente subestimado.

Veja, por exemplo, as imagens abaixo, que tirei neste domingo. A única manipulação digital a que foram submetidas foi realizada para que coubessem na largura de coluna deste blog:

E se eu dissesse que tirei essas fotos do terraço do prédio onde moro e as apresentasse como provas da existência de um óvni que pulsou no céu por alguns minutos, emitiu raios de luz para a direita e para a esquerda e em seguida se desintegrou, produzindo uma chuva prateada?

Suponho que a maioria dos leitores deste blog soltaria grunhidos de desgosto, entupiria a área de comentários com merecidas recriminações contra minha pessoa e nunca mais visitaria este endereço.

Mas em outro blog, com outro público e em outro contexto, a história poderia muito bem colar. E mesmo alguns leitores deste blog, menos familiarizados com as peculiaridades do processo fotográfico, talvez se sintam um pouco confusos: afinal, o que aparece nas fotos?

Minha descrição do contexto em que as imagens foram feitas — do terraço do prédio — foi mentirosa. Na verdade, fiz as fotos das janelas do apartamento. Janelas têm vidros, e vidros podem refletir o flash. Vidros também podem estar sujos, e a sujeira também pode refletir o flash forçado.

Por fim, ao reduzir as fotos para incluí-las no blog, eliminei deliberadamente as margens, onde a moldura da janela aparecia. Uma versão sem cortes: