Discos voadores e ETs hostis

Estadão

02 Abril 2010 | 11h54

Como é feriado, resolvi dar uma folga à ciência no blog e escrever um pouco sobre ficção científica. O “gancho” (jargão jornalístico para “por que diabos estou escrevendo sobre isso e não sobre outra coisa?”) é a estreia no Brasil, na próxima semana, da nova versão da série de televisão “V”, inspirada na minissérie da década de 80.

Muita gente provavelmente vai achar que a cena dos discos voadores imponentes pairando sobre as principais cidades do mundo lembra o filme Independence Day, mas a ideia provavelmente data do romance O Fim da Infância, escrito por Arthur C. Clarke ainda nos anos 50. Esse livro, aliás, deve ser relançado em breve no Brasil.

Outra ideia da minissérie que também é prefigurada no livro é a dos alienígenas que chegam oferecendo inúmeros benefícios à humanidade, mas ao preço de uma incômoda perda de autonomia da nossa espécie, e com motivos ulteriores — embora, no romance, essa parte das segundas intenções dos ETs seja bem mais sutil e complexa do que na minissérie de quase 30 anos atrás.

(Sim, eu me lembro da minissérie. Robert Englund, o Freddy Krueger original, era um dos alienígenas, se bem me recordo. Também me recordo de ter achado meio tosco o recurso de associar a maldade dos ETs à feiúra física — e olhe que só tinha uns 13 anos na época)


freddy_kruger

É meio óbvio que esse tipo de história sempre serve de metáfora para “alguma coisa”, seja a resistência à ocupação, ao colonialismo, ou uma fábula sobre os riscos de se aceitar presentes de estranhos.

O mais engraçado nisso tudo é que, se uma situação como a descrita na série fosse possível — há vários motivos para supor que viagens interestelares tripuladas são, se não impossíveis, tremendamente improváveis; entre eles, claro,está o limite da velocidade da luz — seria muito mais razoável que os ETs fossem mesmo bem intencionados do que o oposto.

A razão é que não temos nada aqui na Terra que uma espécie avançada o bastante para viajar entre as estrelas não pudesse conseguir com mais facilidade em outros cantos da galáxia, seja minério, ar, água, comida, energia… A única coisa exclusiva da Terra são as formas de vida e as culturas daqui. Com a ressalva de que ambas podem ser muito bem observadas e estudadas, se alguém lá em cima achar que vale a pena o esforço, a uma distância segura.

Em outras palavras, não haveria motivo para que os ETs se dessem ao trabalho de vir para cá chutar nossos traseiros.  Uma exceção a esse princípio teria de ser algo como o conto Somos um povo ciumento, de Lester Del Rey, no qual alienígenas invadem a Terra atendendo a uma inspiração divina. Mas hoje não é um bom dia para falar em guerra santa…