DNA de arsênico, mídia e o Horta

Estadão

03 Dezembro 2010 | 08h38

Imagino que a esta altura todo mundo já viu ou leu alguma coisa sobre a descoberta, nos Estados Unidos, de uma espécie de bactéria que parece ser capaz de trocar um dos elementos fundamentais da vida como a conhecemos — o fósforo, que entre outras coisas está na estrutura do DNA — por arsênico (detalhes aqui).

E imagino que todo mundo também já foi informado de que essa descoberta foi a causa da grande celeuma online que se propagou, ao longo da semana, sobre qual seria o tema da “importante descoberta de astrobiologia” para a qual a Nasa havia convocado uma entrevista coletiva, finalmente concedida às 17h de quinta-feira.

Se não me engano, chegou-se a publicar um vídeo no YouTube com  a “revelação” de que seria anunciada a descoberta de vida em Titã, uma das luas de Saturno.

Muita gente saiu culpando a Nasa por fazer “hype” indevido, mas tendo já alguns anos de experiência em teleconferências da agência espacial, posso dizer que a forma como o evento de quinta foi preparado, com a emissão de um comunicado “misterioso” sugerindo que algo muito importante seria anunciado,  é o procedimento-padrão da agência. A descoberta de percloratos em Marte, por exemplo, foi tratada da mesmíssima forma.

O “tom misterioso” do comunicado é, até certo ponto, uma necessidade. A pesquisa sairia numa revista científica, a Science, e seu conteúdo não poderia vir a público antes do fim do embargo imposto pelos editores da publicação. No fim, a pressão foi tanta que a revista liberou o embargo quase duas horas antes do prazo final.

Muitos jornalistas (eu inclusive) têm acesso prévio ao conteúdo que será publicado na Science. Isso acontece para que possamos, se for o caso, realizar entrevistas e pesquisas antes da divulgação oficial do material, e assim ter algo pronto sobre o assunto logo que a “lei do silêncio” cair.

Estando do “lado de dentro” do embargo wall, não foi difícil deduzir que a coletiva da Nasa — marcada para o horário exato da liberação pública do conteúdo da Science– tratava de algo que estaria na revista; e olhando o conteúdo da revista, não foi difícil achar qual era o estudo dali financiado pela Nasa.

Nada a ver com ETs dando alô para os nossos radiotelescópios ou com o anúncio de vida em Titã, como todos já sabemos. Mas fica a questão de por que um comunicado muito dentro do padrão da Nasa — como de costume, redigido em termos escolhidos para chamar atenção, já que é isso que as assessorias de imprensa fazem —  provocou tanto alvoroço.

De acordo com este despacho da Associated Press, a coisa toda começou com especulações em um blog cujo autor estava fora do embargo wall, e portanto não sabia mesmo do que se tratava o anúncio, e que resolveu arriscar algumas deduções em público.

Mas, como disse Sherlock Holmes em Um Escândalo na Boêmia, “É um erro capital teorizar antes de se obter os dados. Inconscientemente, começa-se a torcer os fatos para que caibam nas teorias, e não as teorias para que  caibam nos fatos”.

Curiosamente, o “hype”, que levou ao fim prematuro do embargo, acabou fazendo com que a coletiva, quando finalmente ocorreu, soasse como notícia velha.

Muitas análises da descoberta já estavam online quando Felisa Wolfe-Simon começou a falar, inclusive com cientistas notando que o arsênico é um pobre substituto para o fósforo, e que as bactérias descobertas são menos “vida baseada em arsênico” e mais “vida que consegue se virar com arsênico”. O que me traz ao Horta do título.

Para quem não está devidamente familiarizado com os clássicos: no vigésimo-sexto episódio da série original de Jornada nas Estrelas, os protagonistas encontram um alienígena chamado Horta, cuja biologia é baseada em silício, e não em carbono. O episódio chama-se Demônio da Escuridão.

Antes que me acusem de estar fazendo proselitismo televisivo: o Horta foi citado durante a coletiva da Nasa, como uma espécie de paralelo: a bactéria põe arsênico no lugar de fósforo; o Horta tinha silício no lugar de carbono; a bactéria é um Horta do mundo real!

O que parece claro, no entanto, é que este não é o caso: a bactéria GFAJ-1 revela-se mais uma forma de vida baseada em fósforo que, pressionada, adota o arsênico in extremis, do que uma forma de vida confortavelmente baseada em arsênico. Ela ainda não é o Horta. Mas sugere que ele pode estar por aí — talvez, quem sabe, lá em Titã.