Duas vezes Richard Matheson

Estadão

15 Outubro 2010 | 08h50

Cena do filme A Casa da Noite Eterna, inspirado no romance Hell House, com Roddy McDowall em primeiro plano

Semana passada escrevi sobre a nova tradução no Brasil de The Gods Themselves, de Isaac Asimov, e fiquei pensando se não daria para aproveitar mais sextas-feiras para tratar um pouco de literatura de ficção científica aqui no blog.

A ideia me pareceu interessante, mas confesso que não muito atraente. Escrever sobre literatura é algo perigoso. Pondo de lado minha duvidosa competência na área, há ainda o risco de o jornalista que se dedica a isso acabar virando um “leitor profissional”, com uma pauta de leituras ditada pelas modas, pelos prêmios, pelos obituários ou pelo mercado. E realmente detesto imaginar que minhas leituras sejam ditadas por algo além de meu palpite pessoal.

Enfim, estava matutando essas coisas quando me vi na livraria da Rodoviária do Tietê e dei de cara com dois volumes de Richard Matheson, publicados pela Novo Século, O Incrível Homem que Encolheu e Hell House – Casa Infernal.

Você provavelmente conhece os títulos, mas talvez os associe mais ao cinema. Essas são, de fato, as histórias que inspiraram tanto o filme de Jack Arnold sobre um homem que se vê encolher cada vez mais quanto a película de terror de 1973, A Casa da Noite Eterna, com Roddy McDowall.

A carreira de Matheson é marcada por esse trânsito entre a página e a tela — ele é roteirista de televisão e cinema, tendo produzido scripts para seriados como Além da Imaginação, e adaptou trabalhos seus e de outros autores para o meio audiovisual.

Outras obras suas que ficaram famosas nas telas são Em Algum Lugar do Passado,  Encurralado (dirigido por Stephen Spielberg) e Eu Sou a Lenda. Mais recentemente, seu conto Button, Button foi adaptado para o cinema como A Caixa, estrelando Cameron Díaz.

Voltando a falar dos livros: O Incrível Homem que Encolheu e Hell House seguem a mesma linha de Eu Sou a Lenda, na medida em que se apropriam de temas geralmente tratados na esfera da magia e da fantasia — vampiros, encolhimento do corpo humano, assombrações — e os transplantam para cenários de ficção científica.

Matheson já foi criticado por se “apropriar do jargão da ciência sem se dar ao trabalho de entendê-lo”, e de fato as explicações que ele encontra para os fenômenos em seus enredos são cientificamente mais furadas que a origem dos super-heróis da Marvel.

Mas minha impressão é de que essa crítica perde o ponto principal: quando, na obra de Matheson, o sobrenatural vira o (pseudo)científico, o olhar lançado sobre o problema — vampiros, fantasmas ou o que for — muda. Torna-se mais racional; descobrem-se leis da natureza por baixo de tradições e superstições; deduções são feitas a partir disso; e, com base nessas deduções, novas ferramentas acabam sendo criadas.

Não importa muito que essas “leis da natureza” sejam fajutas! Afinal, os livros são obras de ficção. O que realmente há de interessante nisso tudo é o processo. E a escrita: personagens de Matheson, na página, são mais complexos do que se vê na tela.

Uma nota final: não conheço as traduções da Novo Século. As capas não me pareceram lá muito convidativas, mas não se deve julgar um livro, etc. De qualquer forma, os originais têm um lugar de honra na estante aqui em casa.