E o Nobel vai para a química orgânica (de novo)

Estadão

06 Outubro 2010 | 08h24

O Prêmio Nobel de Química deste ano é o terceiro, em sequência direta, a envolver avanços ou descobertas na área de química orgânica.

O de 2009 foi concedido a três pesquisadores que estudaram o funcionamento e a estrutura do ribossomo, a “fábrica química” que constrói proteínas dentro das células. Já o de 2008 havia sido dado aos descobridores da proteína fluorescente verde.

Diante dessa tendência, já ouvi gente brincando que o Nobel de Química devia mudar de nome para Nobel de Biologia, e pronto. Tenho a impressão de quem diz isso, no entanto, se esquece de que “química orgânica” não significa química da vida, mas simplesmente química do carbono.

O plástico do teclado do seu computador é orgânico, por exemplo — e, embora talvez esteja servindo de suporte para comunidades biológicas variadas (que poderiam ser dizimadas por um paninho limpo com álcool), não está vivo.

O fato é que o átomo de carbono tem uma riqueza e versatilidade que parecem ser únicas na natureza. Não é à toa que ele é a base da vida. Não nos equeçamos, aliás, de que o grafeno, descoberta que rendeu o Nobel de Física deste ano, também é um composto de carbono.

Como destacou o comitê Nobel em seu anúncio desta quarta-feira, o uso do paládio como catalisador para a criação de ligações entre átomos de carbono tem aplicações que vão da produção de drogas e passam pela de plásticos e polímeros e de tecnologia eletrônica.

O que me traz a duas reflexões. A primeira é a continuidade que existe, em escala molecular, entre o vivo e o não-vivo, entre plástico inerte e órgãos e tecidos.

A segunda, que alguns comentaristas levantaram em minha postagem sobre a Fórmula de Drake,  é a da possibilidade de haver vida no Universo baseada em outro tipo de átomo que não o carbono. Trata-se de uma pergunta que só poderemos responder com algum grau de precisão no futuro, mas a versatilidade da química orgânica parece sugerir que nenhuma outra matriz é realmente necessária.