E viva o IgNobel!

Estadão

01 Outubro 2010 | 08h20

Quinta-feira, 30 de setembro, foi a noite de gala do Prêmio IgNobel, concedido a pesquisas científicas que “primeiro fazem rir, e depois pensar”. Muita gente acha que a relação do IgNobel com os Prêmios Nobel (que serão anunciados na semana que vem, aliás) é semelhante à da Framboesa de Ouro com o Oscar — uma antípoda, um “prêmio” para coisas mal-feitas.

Mas este não é, necessariamente, o caso. Se  os primeiros IgNobéis realmente tinham um espírito de sacanear o “agraciado” — não há outra explicação para a lista de vencedores de 1991, que contemplou, entre outros, Jacques Benveniste, o profeta da “memória da água”, e deu um prêmio de paz a Edward Teller, pai da bomba H — de lá para cá a honraria assumiu um caráter mais ameno.

(A relação dos trabalhos vencedores deste ano, que inclui um tratado sobre felação entre morecegos e uma prova de que seu chefe provavelmente é um incompetente, você encontra aqui.)

Isso se reflete até na mudança do slogan do prêmio, que incialmente era “Pesquisas que não podem, ou não devem, ser reproduzidas” para “Pesquisas que primeiro fazer rir e depois, pensar”.

Foi nesse espírito de reconhecimento ao inusitado, aliás, que os primeiros brasileiros chegaram ao IgNobel em 2008, com uma pesquisa sobre a capacidade que os tatus têm de desorganizar sítios arqueológicos.

O IgNobel, em sua forma atual, me parece um prato cheio para filósofos, psicólogos, historiadores e sociólogos da ciência.

Uma questão comum nessas áreas é descobrir como a ciência de uma determinada época decide que perguntas fazer à natureza — por que determinados assuntos são alvo de interesse científico e outros, não, e como essa relação de temas tidos como dignos de estudo muda com as mudanças de época, cultura, país, etc.

Modestamente, sugiro que o IgNobel é um poderoso indicativo e que hoje em dia há muito mais perguntas sendo feitas à natureza do que sonha nossa vã filosofia.