Entre fato e especulação, ou a importância de saber separar

Estadão

23 Abril 2010 | 08h22

Peço licença para usar a sexta-feira, outra vez, para falar um pouco de ficção científica.

A mais recente edição brasileira de O Fim da Infância (confissão de possível conflito de interesse: eu traduzi uma parte dos “extras” incluídos no volume), de Arthur C. Clarke, vem com uma curiosa advertência ao leitor, que avisa que as opiniões expressas no livro não representam as do autor.

Em princípio, isso pode parecer estranho. Afinal, ninguém espera que o autor de um livro sobre um psicopata assassino, narrado em primeira pessoa, seja também um psicopata assassino; ou que Sax Rohmer, o criador do infame Dr. Fu Manchu, tivesse mesmo ganas de destruir o Império Britânico e conquistar o mundo.

No caso da ficção científica, no entanto, a coisa realmente parece mais delicada. O enredo de O Fim da Infância não só é pessimista quanto o futuro da exploração espacial — iniciativa da qual Clarke era entusiasta — como ainda incorpora, como reais, elementos como ufologia e paranormalidade, coisas que Clarke,  um cético racionalista, jamais endossaria com base na evidência nos dados disponíveis até este século.


Mas o jogo da ficção exige que o autor seja o mais consistente possível dentro da história que está narrando. Como um bom advogado, ele precisa defender a inocência de seu cliente (ou a integridade de seu enredo) com todas as forças, não importa quais seus sentimentos íntimos a respeito do caso. Logo, não seria difícil interpretar o romance como uma peça de defesa de posições em que Clarke, na verdade, não acreditava. Daí, o “disclaimer“.

Menciono a situação do escritor porque ela é bastante comum na especulação científica, tanto na feita por ficcionistas quando por cientistas: a construção de argumentos com base em, ou na defesa de, ideias nas quais não se necessariamente acredita. Além de representar um bom exercício de lógica e ter o potencial de multiplicar caminhos e possibilidades, também pode ser uma prática de humildade.

Mas também é preciso manter a perspectiva de que ideias são ideias, fatos são fatos, e o fato de uma ideia ser interessante e trazer implicações agradáveis não basta para torná-la real. O intervalo entre ponderar e acreditar não se percorre, ou não se deve percorrer, em um único passo.

No entanto, isso acontece com frequência no dia-a-dia. Uma narrativa, por ser lisonjeira ou por oferecer alguma consistência interna — embora a consistência com os fatos no mundo ainda fique indefinida–, não é apenas apreciada, mas também adotada. Mais sábio talvez fosse seguir o caminho de Clarke: esta é uma boa ideia, que rende uma boa história, e acho que podemos nos divertir com ela. Mas não acredito em uma palavra.