Espaço: audaciosamente indo para nunca mais voltar?

Estadão

21 Outubro 2010 | 08h47

Que tal ir a Marte para nunca mais voltar? A ideia está num artigo assinado por Dirk Schulze-Makuch e Paul Davies (sim, aquele Paul Davies, autor de O Quinto MilagreO Enigma do Tempo, entre outros), lançado numa publicação online relativamente recente — está completando um ano agora — o Journal of Cosmology.

Aliás, toda a edição atual do Journal é dedicada à exploração de Marte. Outros artigos (que podem ser encontrados no link acima; uma descrição detalhada do trabalho de Schulze-Makuch e Davies aparece aqui) incluem perspectivas oferecidas pelos ex-astronautas do programa Apollo Edgar Mitchell — cuja ligação com pesquisas paranormais nos anos 70 talvez não sejam uma boa recomendação — e Harry Schmitt, que foi o único cientista a pisar na Lua.

A revista tem seções inteiras dedicadas à psicologia de uma viagem a Marte, artigos técnicos sobre detalhes da viagem e da construção de uma base e dois textos na categoria Sex on Mars. Radiation, Brain, Heart, Sexuality, Fertility, Pregnancy, Fetal Development, o que pode soar um pouco bizarro e rebuscado, mas se seres humanos forem até lá para ficar alguém vai ter de pensar nisso, certo?

Enfim, para quem estiver interessado em escrever um romance sobre os pioneiros da colonização de Marte, esta edição do Journal parece ser uma ótima fonte de pesquisa.

A ideia de mandar para o espaço pessoas que nunca mais pisarão na Terra  não é exatamente nova, mas ela costuma aparecer mais em propostas de exploração interestelar.

O motivo óbvio é o limite da velocidade da luz: a estrela mais próxima da Terra que talvez tenha um planeta que valeria a pena visitar é Epsilon Eridani, a 10 anos-luz daqui.

Numa nave que percorra o trajeto a 10% da velocidade da luz, a viagem duraria 100 anos. A dilatação do tempo causada pela relatividade não faria muita diferença, mesmo se essa velocidade absurdamente alta (algo como 100 milhões de km/h) fosse atingida, e com isso duas ou três gerações teriam de se suceder a bordo.

Em 2002, A Associação Americana para o Progresso da Ciência (a AAAS, que publica a revista Science) realizou um simpósio chamado Viagem Interestelar e Naves Espaciais de Múltiplas Gerações. Do simpósio saiu um livro do mesmo nome, que teve como um dos editores o falecido escritor de ficção científica Charles Sheffield.

Uma das ideias apresentadas envolve o uso de um sistema de velas solares para acelerar e desacelerar a nave, algo parecido com o que (pausa para o comercial) uso em meu romance juvenil Nômade (fim da pausa para o comercial).

Considerações de custo e motivação a parte, esse tipo de projeto sempre esbarra na questão de quem enviar, como garantir a estabilidade psicológica da tripulação e se é justo comprometer gerações inteiras no projeto — tudo bem que o seu avô foi voluntário para passar a vida trancado numa lata de sardinha rumo às estrelas, mas ninguém perguntou se você topava.

Mas essa última questão me parece meio falsa: ninguém nunca me perguntou também se eu concordava com a decisão de Giuseppe Orsi de vir para o Brasil, e eis-me aqui.