ET de Corguinho e D.D. Home

Estadão

26 Outubro 2010 | 10h13

Sei que o assunto já envelheceu um pouco, mas a cada dia aparece uma outra pessoa sugerindo que eu comente algo a respeito da reportagem da TV Record sobre Bilu, o suposto “ET de Corguinho”.

A matéria está disponível no YouTube, assim como um vídeo-resposta feito pela comunidade ufológica que se sentiu ofendida pela produção.

Para quem, como eu, prefere ler ou ver DVDs no domingo à noite e entrou boiando na história, um resumo: no último dia 10, o Domingo Espetacular da Record apresentou uma matéria de cerca de 20 minutos sobre o Projeto Portal, uma comunidade mística-esotérica-ufológica encabeçada por Urandir Fernandes de Oliveira na cidade de Corguinho, no Mato Grosso do Sul.

Esse grupo já havia sido tema de reportagem do caderno Aliás, do Estado, há alguns meses.

O ponto alto da matéria televisiva foi a aparição fugaz de “Bilu”, um suposto extraterrestre fracamente vislumbrado em meio à escuridão e que se comunica numa voz fina, quase infantil, e numa gramática estilo “Mim-Tarzã-Tu-Jane”.

Embora o nome “Bilu” de certa forma deponha a favor da autenticidade da criatura — por que todo ET teria se se chamar Darth Vader, Klaatu, Mar-Vell ou Bashelbazaar? — perito ouvido pela reportagem da Record concluiu que se tratava de um sujeito usando um capacete com duas lâmpadas presas na testa, o que me parece uma explicação muito mais econômica e perfeitamente capaz de dar conta dos mesmos fatos.

Enquanto assistia ao vídeo na internet, no entanto, o que me veio à mente não foram os filmes Contatos Imediatos do Terceiro Grau ou 2012 — ambos citados na matéria — mas o grande charlatão da era de ouro da fraude espiritualista do século 19, D.D. Home.

Diz a lenda que Home nunca foi pego cometendo fraude de forma tão flagrante como outra estrela da época, Eusapia Paladino. Mas, como pondera Martin Gardner,  “depende do que você quer dizer com ‘pego’ “. Há pelo menos um caso em que ele foi visto pondo o pé de volta no sapato, debaixo da mesa, depois de uma mulher dizer ter sido tocada por um espírito.

Home, Paladino e outros dos falsificadores razoavelmente bem-sucedidos de fenômenos paranormais dos anos 1800s e início dos 1900s sempre insistiam em duas condições para realizar seus feitos, e só eram capazes de mostrar a plenitude de seus poderes, incluindo levitação e o “aporte” de objetos do mundo espiritual,  quando essas condições eram obtidas: escuridão total ou quase total e a ausência de descrença. Trevas e uma atitude mental positiva da plateia eram requisitos fundamentais.

Esses dois requisitos também têm grande destaque na reportagem da Record. Diversas vezes vemos os jornalistas sendo admoestados para apagar a luz ou reduzir a iluminação, e Urandir insiste que a presença do extraterrestre “depende da energia gerada pelo grupo”.

Claro que esse coincidência, digamos, metodológica entre o charlatanismo vitoriano e o contato extraterrestre brasileiro pode ser só isso, uma coincidência. Mas não pude evitar que, em minha mente, a imagem dos salões londrinos do fim do século 19 sobrepusesse-se à do interior sul-matogrossense do início do 21.

Concepção artística de uma levitação de Home