Hawking: colonizem o espaço ou encarem a extinção

Estadão

10 Agosto 2010 | 08h49

Há alguns meses, o físico e matemático Stephen Hawking deu algumas declarações que causaram alvoroço, a respeito do contato com inteligências extraterrestres. Desta vez, ele falou a respeito da perspectiva de sobrevivência da raça humana nos próximos 100 anos — muito baixa, disse Hawking, se continuarmos a manter “todos os ovos numa mesma cesta”. Ou, no caso, toda a espécie num mesmo planeta.

Em princípio isto soa como uma versão mais alarmista da poética frase de Konstantin Tsiolsovsky — “A Terra é o berço da humanidade, mas não se pode viver no berço para sempre” — só que Hawking elabora o argumento: “Nossa população e o uso dos recursos finitos do planeta Terra estão crescendo exponencialmente, bem como nossa capacidade técnica de mudar o ambiente, para o bem ou para o mal”, disse ele, de acordo com a France Presse.

Este é um ponto, claro, que os ambientalistas vêm fazendo há décadas. O risco de esgotamento dos recursos naturais é algo reconhecido há pelo menos dois séculos, desde Thomas Malthus.

Em 1972, um relatório chamado Limites para o Crescimento causou estardalhaço ao alertar para o risco de esgotamento de uma série de recursos ainda no século 20.

O destino cruel vem sendo adiado, primeiro, pela dinâmica do mercado (reservas de petróleo que eram inviáveis há alguns anos tornam-se lucrativas com a alta dos preços causada pela escassez), pelo aumento da consciência ambiental e também por sucessivos avanços tecnológicos, como o ganho de eficiência nos motores e na agricultura.

Só que conservação, reciclagem e eficiêcia adiam, mas não impedem, o esgotamento do recurso. Há uma diferença crucial entre um motor capaz de rodar com apenas uma gota de combustível e um motor capaz de rodar sem nada. O primeiro é ficção científica, o segundo é conto de fadas.

Argumentos semelhantes aos de Hawking já foram feitos, no passado, por gente como o físico  Gerard O’Neill, cujo livro The High Frontier é um clássico visionário, uma espécie de plano de negócio para a criação de uma utopia espacial.

Em tempos mais recentes, o astrônomo John Lewis publicou Mining the Sky, onde argumenta que, se levarmos em consideração os recursos minerais e energéticos do restante do Sistema Solar, a disponibilidade para crescimento econômico torna-se “infinita”.

Isso tudo parece muito utópico e maluco, mas creio que não mais do que fazendas de vento pareciam ser há algumas décadas. Mas também é muito mais caro, difícil e perigoso do que fazendas de vento jamais foram, claro.

Sendo isto aqui um blog, vou me dar o direito de ser idiossincrático e emitir um palpite extremamente pessoal a respeito: um dia, a  humanidade vai notar que precisa, e muito, dos recursos do espaço. Só espero que isso aconteça enquanto ainda tivermos recursos suficientes, aqui,  para chegar até lá.

ADENDO: Via @fabiofernandes, link para texto mais completo sobre a fala de Hawking e um vídeo. Tudo aqui.