Insolência, Golfo do México e o pré-sal

Estadão

16 Julho 2010 | 08h24

Este não é um blog de ou sobre política. Mas o ponto de vista manifestado pelo presidente Lula a respeito da causa do desastre da British Petroleum no Golfo do México, e a garantia presidencial de que a exploração do petróleo na camada pré-sal do litoral brasileiro será muito mais segura porque, nas palavras do mandatário, “temos tecnologia e, se Deus quiser, não vamos permitir que isso aconteça aqui” deixaram-me apreensivo demais para evitar o assunto.

(Vou me abster, por questão de espaço, de analisar a ideia fixa que o presidente parece ter de que, para se desenvolver, o Brasil deve necessariamente repetir todos os crimes ambientais cometidos pelos países ricos, e de que o fato de esses erros já terem sido cometidos antes, por outros, em vez de servir de alerta para que façamos melhor, na verdade nos absolve)

Começando: em sua avaliação, o presidente parece esboçar uma distinção entre “acidente” e “desastre”. Um “acidente” seria uma obra do acaso ou de fatores incontroláveis; um “desastre”,  um fruto de negligência ou incompetência humana; do ponto de vista de Lula, o que houve no Golfo foi um “desastre”. O raciocínio, então, é que a Petrobrás fará tudo de forma correta e segura, logo não haverá “desastres”.

Mesmo concedendo, para fins de argumento, que essa garantia seja absolutamente válida, a porta continua aberta para eventuais “acidentes”. O próprio presidente reconhece isso, ao dizer que “se Deus quiser, não vamos permitir que isso aconteça aqui”. Está certo, Excelência; mas e se “Deus” não quiser?

Há alguns dias, vários órgãos de mídia nos Estados Unidos vêm reproduzindo reportagem da Associated Press (por exemplo, aqui) onde o “desastre” ou “acidente” do Golfo é atribuído a “hubris” — híbris, em português —  abstração grega que personifica a insolência, a arrogância, o exagero. Não é raro que, nos mitos e tragédias, a queda dos poderosos venha precedida de um acesso tresloucado de híbris.

Um dos pontos centrais da reportagem da AP é a declaração de um dos líderes do comitê de inquérito formado pelo governo Obama para tratar do caso. William Reilly discorre sobre a diferença astronômica entre o avanço da tecnologia para perfurar petróleo em águas profundas e o avanço da tecnologia para mitigar os problemas ambientais que podem surgir quando uma perfuração dá errado. A tecnologia para a limpeza de vazamentos é, em comparação com a de exploração petrolífera, “primitiva”. “Ela não acompanhou o ritmo” do avanço das perfurações, disse Reilly. “É totalmente desproporcional”.

E a desproporção não aparece apenas no tempo consumido para que o poço fosse — provisoriamente, ainda — fechado. Cientistas que se encontram em campo no Golfo do México já questionam se os dispersantes, produtos químicos usados para dissolver as manchas de petróleo, não são um perigo ambiental ainda maior que a mancha em si.

O fato é que não se sabe. O fato é que, se “Deus” não quiser e se alguma operação do pré-sal for vitimada por um imprevisto, é extremamente provável que os meios para deter a crise ambiental antes que ela se transforme numa calamidade não existam. Pois, se  o desastre do Golfo mostra alguma coisa é que, neste momento, eles não existem mesmo.

Há uma oportunidade aqui: de investimento nacional em pesquisa científica e tecnológica para garantir que, se algo sair errado no pré-sal, tenhamos os conhecimentos e os meios necessários para resolver o problema enquanto ele ainda for apenas um problema, e não uma tragédia.

Se o pré-sal for realmente produzir toda a riqueza que andam dizendo por aí, este seria um investimento de retorno mais garantido que a construção de uma dúzia de estádios de futebol, e provavelmente mais barato.

E traria a oportunidade de estarmos preparados, em vez de simplesmente tentarmos a Providência, que pode ter lá outros planos. Afinal, é muito provável que pelo menos um dos 11 mortos na explosão da Deepwater Horizon tenha imaginado que, se Deus quisesse, tudo daria certo.