Japão traz um pedaço do espaço para a Terra

Estadão

15 Junho 2010 | 10h05

Fiz plantão no fim de semana passado, e foi engraçado ver todo mundo tão concentrado nos jogos da copa que um momento histórico passou praticamente batido — o retorno da sonda japonesa Hayabusa (“Falcão”) à Terra, trazendo uma cápsula que, muito provavelmente, contém  a primeira amostra pura de material de asteroide a chegar ao alcance de mãos humanas.

(A notícia mais recente, divulgada na segunda-feira pela Agência Japonesa de Exploração Espacial, diz que a cápsula foi encontrada no deserto australiano e está aparentemente intacta)

Meteoritos — muitos deles, fragmentos de asteroides — vivem caindo por aí, é um fato, mas quando chegam ao solo eles já foram modificados pela atmosfera terrestre. Além disso, no tempo entre a queda e a recuperação, as pedras espaciais continuam interagindo com materiais terráqueos, o que altera ainda mais suas propriedades.

Já os pedaços do asteroide 25143 Itokawa que possivelmente estão na cápsula da Hayabusa encontram-se no estado mais puro e inalterado possível. A cápsula é capaz de conter até 100 gramas de material mas, como disse um cientista, se seu interior estiver apenas revestido por uma fina camada de poeira, já será ótimo.

Para se ter uma ideia da dimensão do feito, 25143 Itokawa torna-se apenas o quarto objeto celeste a ter uma parte de si trazida para a Terra. Os outros são a Lua, o cometa Wild 2 (“acossado” pela sonda Stardust em 2004) e o Sol (amostras de vento solar foram coletadas pela sonda Genesis, também em 2004).

O programa espacial japonês tem um histórico meio dramático, pontilhado por fracassos dolorosos — como a missão Planet-B, que se perdeu a caminho de Marte — e vitórias arrancadas, literalmente, das garras da derrota. Este é o caso da Hayabusa, lançada em 2003.

Uma enorme labareda solar danificou-a no espaço, destruindo parte de seus painéis solares. Como o motor de íons da nave dependia de energia elétrica, a perda da capacidade de gerar potência causou problemas graves à sonda.

Além disso, uma série de dificuldades na comunicação com a Terra e de defeitos nos sistemas responsáveis por controlar a atitude na sonda no espaço impediram que a coleta de amostras do asteroide ocorresse como planejado. A Hayabusa transportava ainda uma minissonda em seu interior, a Minerva, que falhou em pousar no Itokawa.

Também é provável que os projéteis que seriam disparados contra o asteroide, para produzir a emissão de fragmentos a serem recolhidos, não tenham funcionado.

Mesmo assim, cientistas acreditam que o contato da Hayabusa com o astro deve ter sido suficiente para permitir a entrada de uma pequena quantidade de amostras na cápsula.

No fim de 2005, a sonda desenvolveu um vazamento de combustível e perdeu contato com a Terra. A Hayabusa só voltou a ser detectada pelo controle espacial japonês em 2006. Entre 2006 e 2007, uma série de diagnósticos foi realizada, mostrando que o recipiente de amostras estava lacrado e que a sonda tinha condições de iniciar a jornada de volta.

Novos problemas de motor atingiram Hayabusa em 2009. Manobras para compensar as falhas e corrigir a trajetória começaram então a ser realizadas, a última em 9 de junho. Quatro dias depois, a sonda reentrava da atmosfera, após sete anos e 4 milhões de quilômetros, causando a bola de fogo que você vê abaixo: