Kepler pode ter descoberto mais de 100 planetas do tamanho da Terra

Estadão

27 Julho 2010 | 19h34

O telescópio espacial Kepler, da Nasa, criado para buscar planetas semelhantes ao nosso, já encontrou pelo menos 140 candidatos que podem se encaixar na categoria, todos astros com menos de duas vezes o raio da Terra. Este é o grupo dominante na lista de cerca de 700 novos mundos descobertos pela sonda. A informação foi divulgada há alguns dias por um coinvestigador da missão, Dimitar Sasselov, durante um evento realizado em Oxford, Inglaterra.

Até agora, o conjunto de exoplanetas – como são chamados os mundos encontrados em órbita de outras estrelas – era dominado por objetos muito maiores que a Terra e mais parecidos com os planetas gigantes do Sistema Solar, como Júpiter ou Netuno. Existem, no momento, cerca de 400 exoplanetas confirmados.

Vídeo da apresentação feita em Oxford mostra Sasselov afirmando que, embora os candidatos ainda precisem ser confirmados, “o resultado estatístico é alto e claro (…) planetas como a nossa Terra estão lá fora. Nossa Via Láctea é rica nesse tipo de planeta”.

(Nesse contexto, um planeta “semelhante à Terra” não seria necessariamente hospitaleiro ou habitável — Mercúrio, Vênus e Marte, por exemplo, encaixam-se na categoria.)

Em junho, a equipe do Kepler havia anunciado a descoberta de mais de 700 novos candidatos a planeta. O anúncio causou polêmica porque apenas os dados de 306 desses candidatos foram liberados para que cientistas de todo o mundo pudessem analisá-los e confirmar, ou não, a presença de outros planetas fora do Sistema Solar. O restante da massa de dados, referente a 400 planetas, só seria divulgada em fevereiro de 2011.

A apresentação de Sasselov causou surpresa não só por vir pouco mais de um mês após o anúncio oficial dos 700 candidatos, mas também por ter sido feita num evento fechado e realizado fora dos Estados Unidos. A Nasa costuma divulgar resultados de grande impacto em eventos abertos e com ampla cobertura de mídia. Em 1996, o anúncio da descoberta de possíveis fósseis em um meteorito marciano envolveu até mesmo o então presidente Bill Clinton.

Sasselov, búlgaro, atualmente atua no Departamento de Astronomia da Universidade Harvard. Depois da tempestade de questionamentos que se seguiu a sua apresentação em Oxford, incluindo acusações de falta de transparência dirigidas aos pesquisadores ligados ao Kepler, ele preparou uma declaração para ser publicada no blog da missão. Ela ainda não tinha aparecido até o começo da noite desta terça-feira.

ADENDO: Uma curta nota de esclarecimento de Sasselov apareceu no site da Nasa e, por volta das 21h, uma postagem mais detalhada veio à tona no blog da missão Kepler.  Nela, o pesquisador esclarece que “semelhante à Terra”, no jargão que usou na palestra de Oxford, pode não significar planetas realmente muito parecidos com o nosso (como notado no parágrafo entre parênteses mais acima).

Além disso, reitera que o que Kepler tem por enquanto são candidatos a planeta, e não planetas confirmados.

Gráfico aresentado na palestra que causou a confusão

Gráfico apresentado na palestra que causou a confusão

Ele dá, ainda, a informação um tanto quanto desanimadora de que nenhum dos candidatos já descobertos e com raio aparente inferior a dois raios terrestres  fica numa zona habitável — isto é, à distância adequada de sua estrela para sustentar água em estado líquido (e portanto vida como a conhecemos) na superfície.

(O conceito de “zona habitável” é altamente discutível, mas não vou entrar nisso agora.)

Por fim, a postagem traz um link para um artigo científico sobre o tamanho dos planetas-candidatos encontrados pelo Kepler.

Abaixo, o vídeo feito em Oxford: