LHC e as outras dimensões

Estadão

30 Março 2010 | 12h17

Entre os objetivos dos físicos que trabalham no LHC, o grande acelerador de partículas que iniciou suas atividades com energias recorde nesta terça-feira, 30, estão encontrar as partículas que compõem a matéria escura, o bóson de Higgs — a partícula que dá massa às demais — e determinar se realmente existem minúsculas dimensões ocultas no espaço.

Essa parte das dimensões extras vem sendo meio negligenciada nos comentários mais comuns a respeito do colisor, e merece um pouco mais de atenção. A questão que ela tenta responder é: por que a gravidade é uma força de escala tão menor que as outras?

O exemplo clássico, aqui, é o do clipe no carpete: um clipe de papel pousado no carpete da sua sala está sendo atraído pra baixo por uma força gravitacional gerada por toda a massa do planeta Terra (mais a do próprio clipe, claro). Mas basta a força magnética produzida por um mísero ímã de geladeira para erguê-lo. Essa desproporção preocupa os cientistas.

Uma explicação que ganhou popularidade ao longo da última década sugere que a gravidade parece mais fraca que as outras forças da natureza porque ela se dispersa em outras dimensões do universo, inacessíveis, por exemplo, à eletricidade e ao magnetismo. Seria como se houvesse uma espécie de “gato” desviando parte do poder da gravidade para um lugar que não conseguimos ver, enquanto que as outras forças atuariam integralmente no espaço comum, sem sofrer nenhum desfalque.


Trata-se de uma ideia interessante, mas em ciência ser interessante não basta para promover uma hipótese — é preciso que ela passe por testes no mundo real. E o LHC deve produzir esse teste. Nas energias que o colisor é capaz de atingir, deve ser possível detectar o tal vazamento de gravidade. Como? As colisões podem produzir grávitons (as partículas que transportam a força gravitacional) que desapareceriam de repente, ao penetrar nas dimensões invisíveis.

É mais ou menos o mesmo raciocínio do detetive que, ao constatar que o suspeito desapareceu de uma sala trancada, deduz a presença de uma passagem secreta.