Lugar de celular é… no porta-malas?

Estadão

10 Junho 2010 | 07h45

Costumo deixar as questões de saúde para a Fabiane Leite, mas como este caso envolve algo ligado diretamente à proposta deste blog — que é chamar atenção para as formas como a ciência pode afetar a vida das pessoas — vou dar uns pitacos por aqui: estou me referindo ao artigo da doutora Amy Ship no New England Journal of Medicine, no qual ela defende que as pessoas deveriam trancar seus celulares no porta-malas do carro, a fim de evitar usá-los em trânsito.

Para ela, dirigir falando ao celular ou enviando mensagens de texto é tão perigoso quanto dirigir embriagado. O texto de Amy Ship é uma peça de opinião, não o resultado de um estudo científico, mas a médica baseia sua posição em estudos publicados na última década e que associam o uso do celular ao volante a um aumento no número de acidentes e na distração dos motoristas — efeitos que o viva-voz, aliás, não parece ser capaz de evitar.

Fiz uma consulta rápida ao Google Scholar — um sistema do Goggle de busca específica na literatura científica — por “cell phone driving” (algo como “telefone celular e direção”) e obtive 98.400 resultados.

Desses, o mais citado é um artigo publicado em 2001 na revista Psychological Science. Intitulado Driven to Distraction (“Conduzido à Distração”), conclui que conversas ao celular, “usando tanto aparelhos de mão quanto viva-voz”, dobram a taxa de erros ao volante, em simuladores. Ouvir rádio ou audiolivro não tem o mesmo efeito.

Outro trabalho, publicado em 2006 por Human Factors, conclui que, embora as reações de um condutor bêbado e as de um condutor falando no celular sejam diferentes — o bêbado fica mais agressivo, o usuário de celular, mais distraído — o efeito geral, na competência do motorista, dos dois comportamentos é similar.

Então, supondo — como parece ser o caso — que a preponderância da prova científica mostra que falar ao celular e dirigir seja, de fato, um risco de saúde pública comparável ao de dirigir embriagado, por que as leis contra motoristas bêbados contam com apoio popular e as leis contra celular ao volante são tratadas como incômodos desnecessários?

Faltam esclarecimento e divulgação, possivelmente. Mas vou especular que há outro efeito em ação: uma inércia entre  o estabelecimento racional de um fato e sua penetração nos hábitos e comportamentos humanos. Exemplar, nesse caso, é a trajetória de décadas na consolidação do fumo como um “mau hábito” — e do fumo passivo, como um perigo concreto — na consciência popular.

Também há algo de curioso no fato de muito mais gente parecer pronta a acreditar que telefones celulares fazem mal à saúde por causa das ondas que recebem e emitem — sendo que não existe um único estudo conclusivo a esse respeito — do que em aceitar que o uso do celular ao volante é um perigo real e imediato, fato sobre o qual abundam pesquisas contundentes.

Isso talvez se deva ao fato de que as ondas eletromagnéticas do aparelho são invisíveis e “misteriosas”, enquanto que o motorista que telefona e dirige tem um senso de controle da situação.

Que esse senso é quase com certeza falso não parece fazer muita diferença, ainda.