Mais um Asimov vem aí

Estadão

08 Outubro 2010 | 08h33

No mesmo dia em que foi anunciado o Nobel de Literatura, recebi um e-mail da Editora Aleph anunciando que em breve sairá no Brasil uma nova tradução de The Gods Themselves, romance de 1972 de Isaac Asimov (1920-1992) que já havia sido publicado no Brasil com o título O Despertar dos Deuses, mas que agora será chamado em nossa língua Os Próprios Deuses.

Cá entre nós, tenho algumas reservas quanto ao catálogo de não-ficção Aleph (eles publicam Amit Goswami, pelo amor de Heisenberg!), mas a editora vem fazendo um trabalho de resgate da ficção científica internacional — lançando ou relançando no Brasil obras de gente como Asimov, Clarke, William Gibson, P.K. Dick — que merece ser acompanhado.

Sobre o livro de Asimov: em uma carta de 1982, o autor se refere a ele como o romance de ficção científica que mais gostou de escrever (curiosamente, o livro que Asimov diz mais ter gostado de escrever, em toda sua obra, foi a própria autobiografia, seguido de Asimov’s Guide to Shakespeare).

É dividido em três partes, cada uma delas denominada com um trecho de um verso da peça A Donzela de Orleans, de Friedreich Schiller (1759-1805): Contra a estupidez (primeira parte) Os próprios deuses (segunda) Lutam em vão (terceira).

O romance trata das consequências do contato entre a raça humana e um povo de um universo paralelo, e o início de uma espécie de “relação comercial” entre os universos que parece violar a lei da conservação da energia.

A obra costuma ser elogiada pela construção dos alienígenas do outro universo, mas eu pessoalmente acho que a ironia com que Asimov expõe as fraquezas psicológicas dos personagens humanos — a tal da estupidez contra a qual os deuses lutam em vão — é a verdadeira joia do livro.

Asimov tinha um ego enorme — ninguém em sã consciência se meteria a tentar explicar tanto as obras de Shakespeare  quanto a Bíblia em linguagem comum para o público leigo, como ele fez — mas também tinha um agudo senso de ironia, autodepreciativa até, que percebo que muitas vezes passa despercebida por seus leitores.

Como se vê nesta carta de 1968:

“Acabo de votar em mim mesmo como um dos 75 maiores escritores americanos vivos. Expliquei que realmente acho que sou o maior escritor americano e além disso eu tinha de votar em mim mesmo, porque havia uma boa possibilidade de que ninguém mais o fizesse.”