Martin Gardner (1914-2010)

Estadão

24 Maio 2010 | 08h12

Morreu no fim de semana Martin Gardner. Escritor, matemático, polemista, foi talvez o maior divulgador da matemática para o público em geral do século 20 (outros grandes nomes da área, como Havil e Stewart, citam-no com admiração e carinho).

Seu livro de 1952, Fads and Fallacies in the Name of Science (“Modismos e Falácias em Nome da Ciência”) praticamente abriu caminho para o movimento cético nos Estados Unidos. Obras como O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan, são descendentes diretos desse trabalho pioneiro.

Durante décadas, Gardner manteve uma coluna sobre matemática na Scientific American e uma sobre abusos cometidos contra a lógica e a ciência na Skeptical Inquirer. Pelo menos uma de suas coletâneas de artigos céticos, O Umbigo de Adão, chegou a ser publicada no Brasil, e eu dificilmente seria capaz de pensar num livro de ensaios curtos que pudesse recomendar mais às mentes curiosas que ainda não conheçam a prosa clara, elegante e contundente de Martin Gardner.

A paixão de Gardner por lógica e matemática gerou, talvez inevitavelmente, uma paixão por Lewis Carroll, o que levou o escritor a produzir edições definitivas — com anotações exaustivas explicando o contexto histórico, social e, claro, lógico-matemático — das duas aventuras de Alice (No País das Maravilhas e Através do Espelho) além do meu Carroll favorito, A Caçada do Snark. As edições anotadas de Alice estão disponíveis em português, e imagino que andem vendendo bem, graças ao filme de Tim Burton.

Diferentemente da maioria dos polemistas céticos que vieram depois, como Sagan, Dawkins ou Randi, Gardner nunca se declarou ateu, embora fosse um crítico das religiões organizadas. Manteve-se teísta, dentro da máxima credo consolans (“acredito porque consola”).

Isso, no entanto, jamais diminuiu a admiração que as gerações que ajudou a formar sentiam por ele. James Randi, talvez o mais ácido dos céticos atuais, num elogio tocante, diz: “Jamais troquei uma palavra áspera com Martin. Nunca”.