‘Me traz um pinguim?’

Estadão

15 Novembro 2009 | 10h32

A frase do título foi, talvez, a que mais ouvi — tanto de parentes quando de colegas de trabalho — desde que a notícia de que eu iria à Antártida começou a se espalhar. Minha mulher até elaborou um plano detalhado: “Podemos colocá-lo em cima da geladeira. Ou na banheira”.

Brincadeiras à parte, aproveitei as (várias) oportunidades  que a solicitação abriu para explicar que o Protocolo de Madri,  que define as medidas de proteção ambiental aplicáveis à Antártida, limita em muito o tipo de influência que se pode exercer sobre o meio ambiente de lá, e que extrair um pinguim de seu hábitat para decorar a geladeira (ou nadar na banheira) certamente estaria muito além desses limites.

Entre as orientações que a Marinha Brasileira passa aos visitantes que vão à Antártida estão “não coletar ovos, fósseis, líquens animais ou plantas”; e “todo o lixo deve retornar ao Brasil”.

“Então, leve biscoitos e doces para dar para eles” era outra recomendação comum. De novo, eu me via explicando que os pinguins têm uma dieta muito saudável, à base de frutos do mar, e que não seria correto apresentá-los às delícias da dieta humana, como o açúcar refinado e a gordura trans. Especificamente, o artigo III do protocolo proíbe mudanças ambientais que prejudiquem, entre outras coisas, “a capacidade de reprodução das espécies ou das populações de espécies animais e vegetais”. E pinguins diabéticos, obesos e hipertensos provavelmente teriam alguma dificuldade em garantir a continuidade da espécie.