Medindo terremotos

Estadão

28 Fevereiro 2010 | 16h08

Uma das áreas onde a mídia possivelmente mais se confunde, ao tratar de um tema de base científica, é na avaliação de terremotos. Outra é a confusão generalizada que se faz entre energia e potência quando o assunto é eletricidade, mas essa fica para outra vez.

Falando em terremotos: existem duas características que costumam ser reportadas (e, não raro, misturadas): magnitude e intensidade. Magnitude mede o movimento da terra durante o terremoto e a energia liberada pelo evento; a intensidade, os danos causados. A magnitude, que pode ser medida pela escala Richter (embora ela não seja mais usada em sua forma original; trato disso adiante) é medida em números com até uma casa decimal, tipo 3,5 ou 8,8. A intensidade é avaliada pela escala Mercalli, que usa numerais romanos e vai de I a XII.

Para quem, como eu, cresceu ouvindo o Cid Moreira anunciar que o terremoto tal atingiu tantos “graus na Escala Richter”, é até meio chocante saber que a fórmula usada na definição dessa escala, criada por Charles Richter em 1935, não é adotada para medir grandes terremotos há décadas.  Na verdade, segundo a United States Geological Survey,  a  metodologia da “escala Richter” não é confiável para definir tremores de magnitude acima de 7, ou que ocorram muito longe do sismógrafo.

As medidas modernas de magnitude, no entanto, foram criadas de modo a serem compatíveis com a velha escala Richter e, para tremores de intensidade média, dão praticamente o mesmo resultado.

As escalas de magnitude  são logarítmicas, o que significa que seus graus (1,2,3, etc) não representam o deslocamento de terra em si, mas o expoente do número que corresponde ao deslocamento, em base 10. Um terremoto de magnitude 8 não apresenta o dobro do deslocamento de um de magnitude 4, mas sim um movimento 10.000 vezes maior.

(O movimento do chão percebido pelas pessoas presentes depende, claro, de características locais, como a rigidez do solo, etc. A magnitude leva em conta a área de ruptura junto à falha geológica causadora do tremor, e o deslocamento médio nessa área)

Em termos de energia liberada, entre um grau e outro da escala de magnitude a variação é de cerca de 31 vezes. Assim, um terremoto de magnitude 9 libera 900 vezes a energia de um de magnitude 7.

A escala de intensidade, ou Mercalli, por sua vez, depende dos danos observados e da distância entre o observador e o epicentro. O recente terremoto do Chile, por exemplo, poderia ser considerado de nível II em São Paulo (sentido apenas por pessoas em repouso nos andares mais altos de edifícios) e XI para pessoas muito próximas ao tremor (poucas estruturas de alvenaria ainda em pé; pontes destruídas; trilhos retorcidos).