Métodos eleitorais alternativos (I)

Estadão

07 Abril 2010 | 09h42

Quando se fala em reforma política, geralmente escutamos conversas sobre mudança no sistema de representação parlamentar – de proporcional para distrital, por exemplo – , no número de partidos, nas regras de fidelidade e outras coisas. O que nunca ouvi foi uma sugestão de mudança na única parte do sistema que, segundo rigorosa prova científica, não tem nenhuma garantia de funcionamento: a eleição em si, como expressão da vontade popular.

O sistema de voto de pluralidade – no qual cada eleitor tem direito a votar em um único candidato – tem falhas que são conhecidas por filósofos, matemáticos, economistas (e, supõe-se, políticos) há séculos. A mais evidente é a possibilidade de voto dividido, no qual dois candidatos, defendendo plataformas semelhantes, sabotam-se mutuamente e permitem que um terceiro, cujas propostas na verdade são rejeitadas pela maioria da população, ganhe. O Brasil adotou o sistema de dois turnos para tentar contornar esse problema, mas trata-se de um paliativo, não de uma solução.

O matemático francês Jean-Charles de Borda (1733-1799) propôs um sistema eleitoral alternativo para evitar situações assim: nele, os eleitores elencam os candidatos em ordem de preferência – Fulano em primeiro, Beltrano em segundo, etc. Cada candidato recebe pontos pela posição que ocupa.Quem tiver mais pontos, leva.

Aparentemente, isso resolve a questão do voto dividido: se dois candidatos de direita (digamos) são os favoritos, eles terão o maior número de primeiros e segundos lugares, e por conseguinte mais pontos. Assim, em vez de dividir o voto e permitir a vitória do homem de esquerda, acabarão disputando apenas entre si.


O sistema de Borda é usado em algumas partes do mundo e sua aplicação, em diversos contextos, como na discussão de orçamentos participativos, tem fortes defensores. Mas, em sua forma pura, sofre de uma falha trágica: abre caminho para a manipulação de resultados, pela prática de “sepultamento” de candidatos.

Digamos que A e B sejam os mais populares, de acordo com as pesquisas, e C seja um maluco que defende, por exemplo, a invasão de Guiné-Bissau.

Os eleitores de A, espertamente, em vez de votar A,B,C, votam A,C,B, “sepultando” B no pé da cédula, para tirar pontos do concorrente mais forte. Já os correligionários de B fazem o oposto. Resultado? C, que aparece em primeiro lugar nas cédulas de seus partidários e em segundo nas de todos os demais, soma mais pontos e é eleito. No dia seguinte, estamos em guerra com Guiné-Bissau.

O método de Borda foi duramente criticado por outro matemático da mesma época, Marie-Jean Antoine Nicolas de Caritat Condorcet, o Marquês de Condorcet (1743-1794), que em seguida apresentou seu próprio sistema de votação. Que fica para a próxima postagem sobre o tema.