Milhões para a matemática

Estadão

25 Março 2010 | 09h41

Um dia depois de sair a notícia de que Perelman havia recusado o prêmio Clay de US$ 1 milhão pela solução da Conjectura de Poincaré, chega a informação de que  John Tate, um especialista em teoria dos números, é o ganhador deste ano do Prêmio Abel,  outra honraria matemática que paga, exatamente, US$ 1 milhão.

Criado em 2002 para celebrar a memória do matemático norueguês Niels Abel, que no século 19 provou que não existem fórmulas para a solução geral de equações de quinto grau, o Abel compete com a mais tradicional Medalha Fields pelo título de “Nobel da Matemática”.

A matemática é a mais abstrata das ciências e, por isso mesmo, a que parece mais distante do dia-a-dia das pessoas. Mas esse é o típico caso de uma aparência que engana. Para ficar num exemplo próximo: sem um dos preceitos básicos da teoria dos números — de que a cada número composto corresponde um, e apenas um, produto de números primos — não haveria segurança na internet. As chaves de criptografia usadas na comunicação eletrônica dependem crucialmente desse fato.

Num nível mais profundo, há quem argumente, como Seth Lloyd, do MIT, que tudo que acontece no universo pode ser descrito como uma computação — uma operação entre números — e o famoso ensaio do físico Eugene Wigner,
The Unreasonable Effectiveness of Mathematics in the Natural Sciences (algo como “A Espantosa Eficiência da Matemática nas Ciências Naturais”), que chama atenção para o fato de que conceitos criados ou descobertos pelos matemáticos em contextos bem delimitados e, muitas vezes, altamente abstratos, têm a enervante propensão de acabar reaparecendo em situações inesperadas no estudo, bastante concreto, dos fenômenos do mundo físico. Um exemplo citado é o surgimento de pi, um número encontrado originalmente na geometria do círculo, em problemas de estatística.


(Existe uma discussão aparentemente interminável sobre o platonismo na matemática — se os matemáticos “descobrem” ou “inventam” seus objetos de estudo — da qual não tenho a menor intenção de participar)

Não tenho a referência exata aqui comigo, mas me lembro de ter lido em algum lugar que, no início do século 20 (ou fim do 19?), um matemático britânico teria dito, com orgulho, que seu trabalho era tão abstrato e incompreensível que jamais seria usado para matar ou escravizar outros seres humanos. A “espantosa eficiência” de que fala Wigner provavelmente garante que esse senhor estava redondamente enganado. Mas é provável, também, que suas criações, fossem quais fossem, além do inesperado potencial negativo, ajudem muito mais a enriquecer e libertar.