Morte por meteorito?

Estadão

01 Junho 2010 | 07h10

Um novo estudo astronômico indica que pode haver uma população de asteroides na vizinhança da Terra de cuja existência não fazemos — ou não fazíamos — a mínima ideia. A possível presença desse enxame invisível foi deduzida a partir de algumas características da superfície lunar.

A correlação em si é bem elegante (dá para ler o “paper” aqui). Se a hipótese vai se confirmar ou não é, claro, outra história. Mas os cálculos ajudam a (re)abrir uma questão interessante: afinal, qual a chance de se morrer numa queda de meteorito?

É um problema tão instigante quanto difícil de tratar. Por exemplo, o único registro histórico comprovado que conheço, de um ser humano atingido por um meteorito legítimo (em oposição, digamos, a um pedaço de lixo espacial), é do Estado de Alabama, nos EUA.

Ann E. Hodges (1923-1972) foi atingida no quadril por uma rocha espacial de quatro quilos em 30 de novembro de 1954. E sobreviveu. Portanto, a taxa de mortalidade em encontros registrados entre humanos e meteoritos é exatamente zero.

Trata-se, evidentemente, de uma leitura insatisfatória dos dados. É como dizer que a única pessoa que conheço que já encontrou um urso polar sobreviveu, logo ursos polares são inofensivos. As coisas não funcionam bem assim, e um bom exemplo disso é o dano causado pelo Meteorito de Peeskill a um Chevy Mailbu em 1992, na cidade de Peeskill, EUA. Confira a foto abaixo.

Carro atingido por meteorito. Imagem: AP

Carro atingido por meteorito. Imagem: AP

Parece óbvio que se o porta-malas fosse a cabeça ou o torso de um ser humano, o resultado teria sido trágico. De qualquer forma, o total de dois impactos famosos e não fatais ao longo de todo o século 20, num país de dimensões continentais como os Estados Unidos, sugere um risco extremamente baixo.

(Adendo: a Associação Internacional de Colecionadores de Meteoritos conta 14 informes de pessoas supostamente atingidas nos últimos 1.200 anos. Isso dá 0,012 pessoa/ano. A taxa vem aumentando, provavelmente não só porque mais informes chegam a ser divulgados, mas também porque é cada vez maior a área do planeta onde há gente para ser atingida).

Mesmo levando em conta a possibilidade de haver mais casos que não foram reportados, a taxa de acidentes envolvendo pessoas e meteoritos certamente é muito menor, por exemplo, que a de mortes por raio.

Por sua vez, o astrônomo Phil Plait lembra que, se o risco de uma pessoa acabar atingida diretamente por um meteorito é desprezível, o risco de morrer vítima  da queda de uma rocha espacial não é de todo desdenhável. Isso porque meteoritos muito grandes podem acabar matando muita gente.

Uma rocha espacial de quilômetros de diâmetro não precisa acertar ninguém exatamente na cabeça para dar cabo de populações inteiras.

Além disso, grandes impactos são praticamente inevitáveis. Então, supondo que você pudesse viver para sempre, cedo ou tarde um monstro desses, capaz de varrer a biosfera do mapa, acabaria aparecendo. Chance de 100%.

Como viver para sempre é meio difícil, Plait estimou que a chance de uma catástrofe cósmica ocorrer durante os 70 anos da duração, digamos, “normal” de uma vida humana é 1 em 1,5 milhão. É baixa. Mas é ainda maior que a chance de ganhar na Mega Sena!