Murphy é o nome da lei

Estadão

24 Agosto 2010 | 09h12

Depois de quase perder o café da manhã procurando um livro que não estava onde eu o havia deixado, me vi refletindo sobre o que faz com que o chamado princípio antrópico forte (a ideia de que há um ajuste especial nas leis do Universo para tornar a vida humana possível) pareça tão mais altissonante do que a Lei de Murphy, ou a ideia de que há um ajuste especial nas leis do Universo para tornar a vida humana miserável.

“Antrópico” é uma palavra chique, sem dúvida. Mas a Wikipedia registra uma fala em que o mágico Nevil Maskelyne menciona a “depravação das coisas inanimadas”. Essa frase é, afinal, quase tão elegante quanto “princípio antrópico” (“PA”, para encurtar).

Talvez seja uma questão de incentivos: defensores acadêmicos do PA têm chance de ganhar o milionário Prêmio Templeton. Já os formuladores da versão atual da Lei de Murphy — “se alguma coisa pode dar errado, dará” –, incluindo o próprio Edward Murphy Jr, só conseguiram o IgNobel. E póstumo, ainda por cima.

Como eu mesmo já escrevi neste blog sobre PA mas nunca havia me manifestado sobre a Lei de Murphy (“LM”, para evitar repetição excessiva), trato de consertar essa negligência agora.

Um bom jeito de olhar para a LM  é a partir do conceito de entropia, muitas vezes definido como a medida da desordem de um sistema. Eu realmente não gosto dessa definição: qualquer adolescente que já tenha discutido com a mãe sobre a arrumação do quarto sabe que “desordem” é uma coisa subjetiva demais para ser medida, afinal.

Prefiro resumir entropia como o número de maneiras em que alguma coisa poderia ser diferente e continuar a ser ela mesma. Talvez soe complicado, mas voltemos ao exemplo do quarto de adolescente.

Para a hipotética mãe de nosso hipotético jovem, só existe uma maneira de um “quatro arrumado” continuar a ser um “quarto arrumado”: com a cama esticada, as revistas numa pilha sobre a escrivaninha, as roupas dobradas nas gavetas e/ou penduradas no cabide.

Já um “quarto desarrumado” pode existir de várias formas: com as revistas espalhadas pelo chão ou as cobertas jogadas displicentemente sobre a cama ou com roupas dispersas por aí. Ou com tudo isso, e mais, ao mesmo tempo.

Logo, o quarto desarrumado tem mais entropia (mais “modos de ser ele mesmo”) do que o quarto arrumado (que só existe em um estado específico). Essa noção se liga de forma muito íntima à de probabilidade: uma coisa que pode acontecer de vários jeitos diferentes é mais provável do que uma coisa que só pode acontecer de um jeito único.

Disso decorre a Lei de Murphy: “dar certo” geralmente envolve um conjunto bem limitado de resultados, dentro de um universo maior. Todo o resto é “dar errado”.

A formulação atual da lei dramatiza o efeito, ao afirmar que basta deixar uma só janela aberta para o erro que ele há de se manifestar, mas isso leva em conta nossa ignorância: se há um caminho conhecido para a falha, é provável que haja outros em que ninguém pensou.

E agora, onde está aquele livro?