Nobel para fertilização in vitro: antes tarde do que nunca

Estadão

04 Outubro 2010 | 07h52

Estava vindo de carona para a redação quando acessei a internet pelo celular e vi que Robert G. Edwards, um dos “pais” científico-tecnológicos do bebê de proveta, havia ganhado o Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia deste ano. Comentei o fato com minha mulher, que também estava no carro, e ela disse: “Mas só agora?”

Pois é, só agora.  E para o outro membro da equipe criadora da inseminação artificial, Patrick Steptoe, “só agora” acabou sendo tarde demais: ele morreu em 1988.

De acordo com nota divulgada pela clínica de fertilidade criada pelos dois, Bourn Hall, pouco antes de morrer Steptoe ficou sabendo que 1.000 crianças haviam nascido ali, graças ao trabalho de ambos. Essa consciência talvez lhe tenha valido tanto quanto o  Nobel que não viveria para receber.

O Nobel de Edwards é o primeiro prêmio solo, não compartilhado, de Medicina desde 1999, quando Günter Blobel foi premiado pela descoberta do mecanismo que permite às proteínas encontrar seu “lugar certo” dentro ou fora de uma célula.

A última vez que o prêmio foi concedido a um  avanço tecnológico de impacto tão evidente quanto a fertilização in vitro foi em 2003, quando Paul C. Lauterbur e Sir Peter Mansfield foram agraciados por descobertas que tornaram possível a produção de imagens por ressonância magnética.

De acordo com o comitê responsável pelo Nobel de Medicina ou Fisiologia, cerca de 4 milhões de pessoas, em todo o mundo, devem o fato de terem nascido ao trabalho de Edwards e Steptoe.

Questões bioéticas e religiosas

Ao lado do aborto — questão que, segundo analistas, pode ter ajudado a (in)definir a eleição presidencial deste domingo — a fertilização in vitro, ou IVF, ainda é uma questão delicada em termos de bioética, principalmente para quem encara o tema sob uma perspectiva religiosa.

Embora, diferentemente do que ocorre no caso do aborto, a condenação religiosa (principalmente católica, como na encíclica Evangelium Vitae, de João Paulo II) do procedimento não tenha tido grande impacto em sua aceitação pela sociedade, a maioria dos embriões usados em estudos sobre células-tronco é produto de IVF.

Esses embriões são destruídos para a extração das células-tronco, que têm o potencial de gerar qualquer tipo de tecido do corpo humano e, por isso, são consideradas de grande interesse para pesquisas que podem levar à criação de terapias regenerativas.

Em maio de 2008, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que “as pesquisas com células-tronco embrionárias não violam o direito à vida, tampouco a dignidade da pessoa humana”.

Nesse julgamento, o STF manteve a validade do artigo 5º da Lei Federal 11.105 de 2005, que diz que “é permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo procedimento”, desde que sejam inviáveis ou estejam congelados há mais de três anos — e haja autorização dos pais.