O banquete na caverna

Estadão

31 Agosto 2010 | 09h05

Não é incrível que os seres humanos se tolerem? Digo, é óbvio que existe uma forte pressão seletiva para que tenhamos paciência com os parentes, por mais irritantes que sejam — afinal, são nossos genes ali também ou, no caso de cunhados e cunhadas, são os veículos para a propagação de nossos genes — mas o que nos faz aturar o sujeito ouvindo axé, sem headphones, no ônibus lotado? Ou os militantes partidários de aluguel que distribuem santinhos na feira?

O fato desse tipo de tolerância existir é o que torna possíveis grandes cidades como São Paulo, e empreendimentos que dependem da colaboração de um grande número de pessoas. Está entre as maiores conquistas da humanidade. E não é uma capacidade trivial: chimpanzés de uma determinada tribo, por exemplo, parecem perfeitamente dispostos a torturar e matar membros indefesos de outras tribos; e a própria tolerância do homem para com o próximo é delicada e instável — como guerras, terrorismo e crime bem demonstram.

Uma das fontes da tolerância em nossa espécie é, muito provavelmente, o reconhecimento de nossa humanidade comum: a capacidade de ver-se no outro. Isso é uma das coisas que faz com que viagens e eventos esportivos internacionais sejam tão importantes.

Quando, digamos, “o ruritano” passa a ser Alexei, aquele cara engraçado com quem rachamos o táxi na volta para o hotel, a ideia de uma guerra contra a Ruritânia torna-se repugnante num nível ainda mais profundo que o intelectual.

A estratégia de buscar a manutenção da paz pela humanização do próximo parece vir desde a pré-história: uma descoberta arqueológica divulgada nesta semana mostra que um grande banquete, para mais de 30 pessoas (uma multidão para a a época!) foi realizado numa caverna da Galileia há cerca de 12.000 anos.

Uma das autoras da descoberta, Natalie Munro, descreve assim o contexto da festança, ocorrida num momento de transição do nomadismo para a cultura agrícola sedentária:

“As pessoas estavam se encontrando muito mais, o que causava fricção. Antes, era possível ir embora quando os vizinhos se tornavam incômodos. Agora, esses eventos públicos serviam como oportunidades de construir um senso comunitário, o que ajudava a aliviar tensões e solidificar as relações sociais”.

Não se trata de uma solução perfeita, como, novamente, nossa longa história de crimes, guerras e atrocidades sortidas bem mostra. E realmente ainda não consegui decidir se o fato de estarmos tentando há tanto tempo é uma motivo para alento ou de desespero.

Só sei que de vez em quando me vejo simpatizando com a reação do personagem de Burgess Meredith ao holocausto nuclear que acontece no episódio  Tempo Suficiente, Afinal, do seriado “Além da Imaginação” — e que pode ser visto abaixo:

(Aliás, há vários episódios de “Além da Imaginação” online no site da CBS — mas, como fui alertado nos comentários, não para quem está no Brasil…)