O poder do preconceito

Estadão

18 Outubro 2010 | 07h26

Imagine que eu lhe apresente quatro cartas especiais, que tenham uma letra numa face e um número no lado oposto. Coloco as cartas na mesa, com as seguintes faces voltadas para cima:

A   D   4   7

Pergunta: qual a forma mais eficiente de determinar se a seguinte afirmação é verdadeira: “no verso de uma vogal sempre há um número par, e vice-versa“? (vice-versa acresentado após intervenção do Daniel Lima, nos comentários, e omitido após intervenção de Israfel…).

Não responda ainda! Antes, leia a historinha abaixo…

Em 1960, o psicólogo P.C. Wason fez o seguinte experimento com 29 voluntários: apresentou-lhes uma sequência de números — 2, 4, 6 — e pediu que tentassem descobrir qual a lei de formação por trás dela.

Como a amostragem era pequena demais, Wason ofereceu uma colher de chá: antes de anunciar qual a regra deduzida e descobrir se haviam acertado ou errado, os voluntários poderiam gerar uma sequência hipotética, baseada de alguma forma na ideia que tivessem tido, e os pesquisadores lhes diriam se ela se encaixava ou não na lei.

Uma vez de posse da resposta, os voluntários poderiam ajustar suas hipóteses de acordo.

O resultado foi interessante: a maioria dos voluntários gerou sequências corretas (como 102, 106, 110 ou 7, 8 ,9 ou 15, 17, 19) mas anunciou regras erradas — por exemplo, três números pares, três números sendo o do meio a média dos outros dois, três números com uma diferença de duas unidades entre eles. A lei verdadeira era muito mais simples — três números quaisquer, desde que em ordem crescente.

Wason atribuiu a dificuldade dos voluntários a um fenômeno psicológico que chamou de viés de confirmação: uma vez formulada a hipótese sobre qual deveria ser a regra, a tendência natural dos participantes era gerar exemplos que a confirmassem, e não buscar casos que pudessem desmenti-la.

O filósofo britânico Francis Bacon, um contemporâneo de Shakespeare, já conhecia — e deplorava — o efeito. Escreveu ele:

“O entendimento humano, tendo uma vez adotado uma opinião (…) mobiliza todas as outras coisas para apoiá-la e concordar com ela. E embora haja um número e peso maior de casos em apoio ao lado oposto, ainda assim esses são desprezados e negligenciados, ou postos de lado por alguma distinção.”

Voltando agora à pergunta das cartas: quais devem ser viradas para testar a afirmação de que vogais têm números pares no verso?

Se você nunca encontrou esse problema antes e for como a maioria das pessoas,  provavelmente respondeu A e 4.

E, de fato, é necessário virar essas cartas a carta A — se houver um número ímpar atrás dela, a tese estará desprovada.

O 4 não é necessário: nosso enunciado diz que é preciso haver um número par atrás de cada vogal, mas nada a respeito do que esperar atrás de um número par.

Mas é fato que, se houver um número par no verso de A e uma vogal atrás do 4, poderemos sentir mais confiança na afirmação original. No entanto, a despeito dessas duas aparentes confirmações, também será preciso virar a carta 7: se houver uma vogal em seu verso, a tese fica invalidada.

Ninguém é imune ao viés de confirmação, mas precaver-se contra  ele não é muito difícil — basta manter em mente que, ao testar uma ideia, buscar provas de que ela está errada pode ser ainda mais útil do que procurar sinais de que está certa.

Continuando com Bacon, que descreve o viés de confirmação como um “deleite das vaidades”:

“É o erro peculiar e perpétuo do intelecto humano excitar-se mais por afirmativas que por negativas; quando deveria propriamente manter uma disposição indiferente quanto a ambas. De fato, no estabelecimento de qualquer axioma verdadeiro, o exemplo negativo é o que mais deve se impor.”