O quantum de confusão

Estadão

30 Julho 2010 | 10h31

Com a Bienal de Livro se aproximando, minha caixa de e-mail começa a encher com anúncios do lançamento de livros que trazem as palavras “quantum” ou “quântico” no título. Infelizmente, muito pouco desse material — na verdade, temo que nada — trata de história da ciência ou da tentativa de traduzir conceitos complexos da física para a linguagem popular. A maioria simplesmente parece ser literatura de autoajuda que decidiu que “quântico” é o novo “místico”.

Tudo isso dá a impressão de girar em torno da ideia de que, como as partículas subatômicas parecem só assumir características bem definidas quando observadas, e o universo é feito de patículas subatômicas, o universo só assume  características bem definidas quando observado.

Dessa pequena joia filosófica — que eu vou chamar de quantum de confusão — , derivam-se doutrinas que vão da defesa do otimismo e do pensamento positivo como solução para tudo (se você olhar para as coisas positivamente, elas ficarão positivas) à existência de uma realidade metafísica (quem, afinal, é o observador que observa os observadores que estão observando…?).

Pessoalmente, considero a doutrina do pensamento positivo como panaceia universal um tanto quanto perversa — dela pode-se deduzir que a culpa sempre é da vítima, que não se concentrou o suficiente para “atrair boas energias” e “mudar a realidade”; algo difícil de aplicar, convenhamos, ao Holocausto ou ao genocídio de Ruanda.

O problema mais profundo, no entanto, está no fato de que o quantum de confusão simplesmente não é válido.

Mesmo supondo que, sim, observações são necessárias para definir algumas das propriedades das partículas subatômicas (e há muitos cientistas sérios que não estão convencidos disso), em nenhum lugar está especificado que “observação” requer um observador consciente: interações com objetos inanimados, moléculas de ar, partículas de luz, etc., também contam.

Segundo, generalizar da parte (partícula) para o todo (universo) simplesmente não funciona. Senão, vejamos: é impossível morrer afogado em uma molécula de água. O oceano é feito de moléculas de água. Logo, é impossível morrer afogado no oceano.

Evidentemente, há algo errado nessa cadeia de argumento.

Enfim, só para equilibrar um pouco a balança, eu adoraria receber o press-release do lançamento no Brasil de, por exemplo, The Unconscious Quantum (“o Quantum Inconsciente”), de Victor J. Stenger. Mas algo me diz que é melhor esperar deitado — e numa câmara criogênica…