O que quer dizer, ‘o Chile é freguês’?

Estadão

28 Junho 2010 | 09h06

Esportes e estatísticas têm uma convivência meio conflituosa. Todo evento esportivo– de corridas de cavalos a partidas de xadrez — é, afinal, uma fonte praticamente inesgotável de dados numéricos (tempos, pontos marcados, pesos, alturas, vitórias, derrotas…).

A tentação de agregar esses dados de alguma forma e submetê-los a um tratamento estatístico, na busca de restringir a incerteza quanto a eventos futuros, muitas vezes é forte demais para ser vencida. Ainda mais, se houver um mercado de apostas por trás, seja uma bolsa profissional ou um mero bolão amigável.

Mas, afinal: isso faz sentido? Partir da observação de um fato (100% das pessoas que são atropeladas beberam pelo menos um copo de água nas 24 horas anteriores ao acidente) para a inferência causal (beber água induz ao atropelamento) não é tão simples, como o exemplo dos parênteses mostra.

No caso do jogo da tarde desta segunda-feira, sabemos que o Brasil costuma ganhar do Chile. Na verdade, segundo o site da CBF, dos 65 jogos disputados pelos dois países em mais de 90 anos, o Brasil ganhou 46 e perdeu 7. Isso dá cerca de 70% de vitórias.

Se formos apelar para a Lei dos Grandes Números — que afirma que, num número grande o suficiente de eventos, a frequência de resultados tende a refletir a probabilidade real — isso quer dizer que, num jogo qualquer com o Chile, o Brasil tem 70% de chance de ganhar.

Mas quem diz que 65 jogos é um número “grande o suficiente”? Bom, para um nível de confiança de 99%, um total de 65 testes produz uma margem de erro de fantásticos 16 pontos. Isso quer dizer que a probabilidade de vitória brasileira, na verdade, vai de 54%, no mínimo, a 86%, no máximo.

Também dá para fazer uma análise do número de gols: em todos os jogos entre as duas seleções, foram marcados 207 gols, sendo 152 do Brasil. Mais uma vez, isso gera uma taxa de gols brasileiros de cerca de 70%, contra 30% de gols chilenos.

Isso indica que, se você escutar alguém gritando “gol” durante um jogo qualquer entre Brasil e Chile e não souber de quem foi, há pouco mais de 2/3 de chance de que ele tenha sido brasileiro.

É importante destacar que essa análise toda não substitui o jogo em si — no máximo, ajuda a preparar o bolão — e que depende da suposição, altamente questionável, de que “seleção brasileira” e “seleção chilena” são entidades mais ou menos estáveis, em termos de talento futebolístico relativo, desde 1916.

Em outras palavras, se você tiver motivos para acreditar que a seleção chilena atual é significativamente melhor (ou a brasileira, significativamente pior) que  a média dos últimos 94 anos, pode esquecer toda a numeralha.

Além disso, as chances  de vitória do Chile (entre 14% e 46%) estão longe de ser desprezíveis. Não só 46% é quase meio a meio, como 14% é uma vez em cada sete. Igual, por exemplo, à chance de você ter nascido numa segunda-feira.

P.S. Após o jogo:

Bem, mais um “data point” para o conjunto… Agora são 66 jogos, 47 vitórias e (ainda) 7 derrotas; 210 gols, sendo 155 do Brasil. A proporção de gols brasileiros na série histórica se aproxima de 3/4, subindo a partir de 2/3. E que venha a Holanda!