O Universo foi feito para nós, ou vice-versa?

Estadão

28 Abril 2010 | 10h01

Já que estamos no assunto da vida na Terra, em particular, e no Universo, em geral (o tema fez sucesso ontem), vou cumprir uma promessa que fiz algum tempo atrás na seção de comentários de uma postagem anterior e falar um pouco sobre o chamado “princípio antrópico”.  Esse princípio nasce da constatação de que, uma vez que estamos aqui, as leis do Universo devem permitir que existamos.

Soa meio bocó, não? Parece mais ou menos como dizer que, já que 2+2=4, então as regras da aritmética têm de ser tais que 2+2=4. Dã.

Mas há quem veja no princípio antrópico sutilezas ocultas. Elas dependem, basicamente, da interpretação que se procura dar ao enunciado. Em sua forma mais simples,  o princípio apenas lembra que a existência de vida como a conhecemos deve ser levada em conta na elaboração das descrições do Universo.

É mais ou menos como deduzir que a pessoa que está sentada na sua frente no metrô tem uma mãe biológica, porque sem mãe biológica a pessoa não estaria ali.


Foi assim que o astrofísico (e escritor de ficção científica) Fred Hoyle previu uma característica específica do carbono-12, necessária para facilitar a formação desse tipo de núcleo atômico no interior das estrelas. A característica depois foi descoberta na prática. Hoyle chegou a sua previsão raciocinando a partir da abundância de carbono-12 observada nos seres vivos.

Mais polêmica é a chamada forma “forte” do princípio, que afirma que o Universo tem um ajuste fino para produzir e sustentar vida. O princípio forte faz da vida uma espécie de causa final do Universo.

A visão, digamos, darwiniana — de que a vida é uma acidente que se aproveita de condições favoráveis — é virada de cabeça para baixo: as condições é que conspiram para ser favoráveis, e a vida é um resultado inevitável.

Isso, no entanto, soa como uma inversão do princípio e causa e efeito —  como a velha piada de que os narizes foram feitos para suportar os óculos. Ou a fábula da  água empoçada, que se maravilha ao notar como o buraco onde está parece ter sido criado por uma inteligência superior e amorosa, já que tem o formato exato para contê-la, e com todo o conforto.

Os defensores do princípio “forte” costumam ainda lembrar que se qualquer uma das constantes fundamentais da natureza — como a velocidade da luz, ou a massa do próton — fosse um pouco diferente, toda a cadeia de fenômenos físicos e químicos que levam à vida como a conhecemos seria quebrada; logo, o Universo em que vivemos é extremamente improvável.

Confesso que o argumento não me parece muito bom. Primeiro, porque denota uma certa falta de imaginação, como se vida como a conhecemos fosse a única realmente possível.

É certo que a variação de uma ou duas constantes universais — enquanto as outras leis e constantes da natureza se mantêm — poderia inviabilizar até mesmo a formação de átomos, mas e se todas as leis e constantes variassem livremente? É concebível que exista uma infinidade de combinações capazes de dar origem a algo que talvez até nós, com todo o nosso provincianismo, reconhecêssemos como “vida”.